Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 10 de setembro de 2020
O papa Francisco chama os prazeres culinário e sexual de algo “simplesmente divino”, em um livro de entrevistas publicado nesta semana na Itália.
“A Igreja condenou os prazeres desumanos, grosseiros, vulgares, mas por outro lado sempre aceitou os prazeres humanos, sóbrios, morais”, estima o papa argentino quando questionado por Carlo Petrini, escritor e gourmet italiano.
“O prazer vem diretamente de Deus, não é católico, nem cristão, nem nada parecido, é simplesmente divino”, enfatiza o pontífice.
“O prazer de comer serve para manter uma boa saúde, da mesma forma que o prazer sexual serve para embelezar o amor e garantir a continuidade da espécie”, disse Francisco.
O papa se opõe categoricamente a uma “moralidade abençoada” que rejeita a noção de prazer, como aconteceu na história da Igreja Católica, porque “é uma interpretação errônea da mensagem cristã”.
Esta visão “causou enormes danos, que ainda são perceptíveis em alguns casos”, acrescentou. O papa também destaca sua admiração pelo filme “A Festa de Babette”, que se passa em uma comunidade protestante dinamarquesa ultrapuritana do século XIX e que é uma homenagem à gastronomia.
“Para mim é um hino à caridade cristã, ao amor”, considera o Papa.
Temas polêmicos
Desde que virou papa, em 2013, Francisco tem chamado a atenção por declarações sobre temas historicamente polêmicos dentro da Igreja Católica.
Em temas comportamentais, ele já disse, por exemplo, que divorciados não devem ser excluídos da igreja e levantou a possibilidade de eles receberem a comunhão.
O argentino também adotou uma postura mais conciliatória do que a de seus antecessores em relação à homossexualidade. Embora a relação entre pessoas do mesmo sexo continue sendo vetada pela igreja, Francisco defendeu uma abordagem mais compreensiva a fiéis da comunidade LGBT.
“Cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito”, escreveu em 2016 na exortação apostólica “Amoris laetitia” (a alegria do amor).
O papa também já se embrenhou em temas políticos, com críticas ao capitalismo – que em 2015 classificou como “uma ditadura sutil”– e ao aquecimento global, classificado como “um dos principais desafios para a humanidade”
Essas declarações têm insuflado uma espécie de guerra santa dentro do Vaticano, que opõe os conservadores aos reformistas – ala que em geral inclui o argentino.
O auge do conflito aconteceu em abril do ano passado, quando um grupo de acadêmicos católicos ultratradicionalistas escreveu uma carta acusando Francisco de heresia, um dos mais graves desvios no direito canônico da Igreja Católica.
O documento, que tinha como objetivo tirar o argentino do cargo, não chegou a ganhar apoio entre cardeais, mas escancarou a divisão interna na igreja.
A carta tinha como principal alvo exatamente o posicionamento do pontífice sobre questões sexuais.
Os comentários estão desativados.