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Colunistas O preço da minha própria incoerência

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A energia deve ser um bem acessível, descentralizado, capaz de empoderar comunidades e reduzir desigualdades. (Foto: GAI Media)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Reconheço: sou um defensor da sustentabilidade, mas minhas práticas nem sempre refletem aquilo que proclamo. Essa contradição me acompanha como uma sombra, e não tenho medo de chamá-la pelo nome – hipocrisia. Não a hipocrisia cínica, que manipula e engana, mas a hipocrisia humana, que nasce da distância entre o ideal e o real. É nesse espaço que vivo, tentando conciliar minhas convicções com a rotina, minhas palavras com meus atos.

Defendo com paixão a geração distribuída, os recursos energéticos democratizados e as novas tecnologias que podem nos libertar da dependência de sistemas centralizados e injustos. Acredito que a energia deve ser um bem acessível, descentralizado, capaz de empoderar comunidades e reduzir desigualdades. Mas, ao mesmo tempo, sei que ainda consumo de maneira pouco sustentável, que minhas escolhas cotidianas não estão à altura do discurso que sustento. Essa incoerência me dói, mas também me ensina.

Vivemos em um mundo onde a desinformação corrói a confiança e o descaso com a ciência se tornou quase um hábito. Mensagens de cientistas, especialistas e pessoas com reconhecimento internacional são ignoradas ou ridicularizadas, enquanto teorias sem fundamento ganham espaço e seguidores. Esse cenário me cansa. É exaustivo lutar contra um mar de ruído, contra um estado de delírio coletivo que insiste em negar o óbvio: estamos destruindo o planeta que nos abriga.

A hipocrisia, nesse contexto, não é apenas individual. Ela é sistêmica. O capitalismo exalta a inovação verde, mas continua premiando o consumo desenfreado. O socialismo prega igualdade, mas muitas vezes se perde em burocracias que sufocam a prática. Em ambos os sistemas, o ser humano é uma peça que precisa se adaptar, e a hipocrisia surge como uma máscara de sobrevivência. Eu mesmo, ao defender a sustentabilidade sem conseguir vivê-la plenamente, sou parte desse mecanismo.

Mas há uma diferença entre negar e reconhecer. Eu reconheço. Admito minhas falhas e minhas incoerências. Não me escondo atrás de discursos perfeitos, porque sei que a perfeição não existe. O que existe é a busca, o movimento constante em direção a uma vida mais coerente, mais ética, mais alinhada com aquilo que acredito. Essa busca é o que me mantém de pé, mesmo diante do cansaço.

Acredito que estamos em um momento crítico da humanidade. A hipocrisia coletiva, que nos faz falar em proteção ambiental enquanto devastamos florestas, que nos faz celebrar energias limpas enquanto seguimos presos ao petróleo, precisa ser exposta. Só assim poderemos superá-la. Não se trata de eliminar a contradição – isso seria impossível – mas de reduzir sua distância, de aproximar discurso e prática, de tornar nossas incoerências menos gritantes e mais conscientes.

Encerrando esta reflexão, escolho o otimismo. Escolho acreditar que vamos sair desse estado de delírio coletivo e caminhar para uma humanidade mais sóbria, capaz de proteger seu lar, o planeta Terra. Sei que não será fácil, sei que exigirá coragem e mudança, mas também sei que cada reconhecimento, cada passo em direção à coerência, conta. A minha hipocrisia não é um fim, mas um ponto de partida. E é desse ponto que sigo, acreditando que podemos, juntos, construir um futuro mais justo, sustentável e verdadeiro.

* Renato Zimmermann – desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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