Terça-feira, 12 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 11 de dezembro de 2024
Com 12 etapas realizadas entre 2013 e 2017, a operação do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) contra fraudes na produção de leite e derivados no Estado foi reativada nessa quarta-feira (11). Os alvos da vez foram uma fábrica do segmento na cidade de Taquara (Vale do Paranhana) e um químico industrial que já havia sido preso anteriormente por práticas como a adição de soda cáustica ao produto. Ele e outros três indivíduos foram presos.
Com o apoio logístico da Brigada Militar (BM), 110 agentes cumpriram nessa quarta-feira ao menos quatro mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão em empresas e residências de Taquara e das cidades de Parobé, Três Coroas e Imbé, além de São Paulo. Os demais presos são um sócio da indústria na capital paulista e dois gerentes da empresa, que contratou “O Alquimista” para assessoramento na produção de laticínios fraudados.
Também foi detectada contaminação de embalagens por “pelos indefinidos” e pontos de sujeira. A Justiça ainda não autorizou a divulgação da marca investigada pela ofensiva, denominada “Operação Leite Compensado”.
Os itens produzidos no estabelecimento são distribuídos para todo o Brasil e até para países como a Venezuela. Além disso, a fábrica já venceu e participa de várias licitações em vários Estados para fornecimento de laticínios. Recentemente, foi vencedora de concorrência para distribuir derivados do leite a escolas paulistas.
Sobre os lotes, o MPRS informa que, apesar de análises iniciais terem detectado substâncias nocivas à saúde humana e demais sujeiras, são aguardados exames mais detalhados em amostras. O objetivo é determinar exatamente quais estão contaminados.
Velho conhecido
Conhecido por fraudadores e autoridades pelos apelidos irônicos de “Alquimista” e “Mago do Leite”, o profissional esteve no foco da quinta fase da ofensiva, em 2014. Na época havia sido descoberta no município de Imigrante (Vale do Taquari) a sua “mentoria” em procedimentos proibidos como o uso de soda cáustica, bicarbonato de sódio e água oxigenada – nocivos à saúde – em produtos como leite líquido ou em pó, soro e outras modalidades.
O investigado, no entanto, já foi absolvido de acusação alusiva a fatos similares em 2005. Também teve imposta contra si uma medida cautelar em Teutônia (na mesma região). Nos últimos dois anos, ele aguardava a instalação de tornozeleira eletrônica, como medida alternativa à prisão por envolvimento em fraudes apuradas pela quinta etapa da operação. Ele também estava proibido de trabalhar no segmento de laticínios.
Em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), Receita Estadual, Delegacia do Consumidor da Polícia Civil (Decon) e Ministério Público de São Paulo (MPSP), as Promotorias de Justiça Especializada Criminal de Porto Alegre e de Defesa do Consumidor comprovaram a participação do “Alquimista” em novas irregularidades.
O promotor de Justiça Mauro Rockenbach, da Promotoria de Justiça Especializada Criminal de Porto Alegre, afirma que, depois de 2017, após a Leite Compen$ado 12, houve apenas duas denúncias sobre a adulteração no leite, mas ambas envolvendo pouca quantidade de adição de água ao produto, o que não rendeu uma nova fase da operação. No entanto, foram sugeridos e fiscalizados pequenos ajustes na cadeia produtiva:
“Agora a situação é outra. Com a denúncia de 2024 se confirmou um novo risco e, para nossa surpresa, lá estava o ‘Alquimista’, que era para estar usando tornozeleira eletrônica e para sair a condenação dele no âmbito da fase 5 da operação. Enquanto essas questões básicas não têm um desfecho, o que ele faz? Adultera leite e aprimora seus métodos, já que possui a fórmula exata da quantidade de soda cáustica para uma quantidade exata de litros de leite, de forma que os ajustes não sejam detectados nas análises”.
Já o promotor de Justiça Alcindo Luz Bastos da Silva Filho, da Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor, explica que a soda cáustica é usada para ajustar o PH do leite e diminuir a sua acidez. O composto também se volatiza rapidamente, não sendo detectado nos testes:
“Além de aprimorarem as fórmulas para adulteração, também aprimoraram as práticas criminosas. Eles utilizam alguns códigos – ‘vitamina’ e ‘receita’ – para tentar despistar qualquer tentativa de investigação. Em compostos lácteos para fazer bebidas derivadas, eles chegaram a reprocessar o produto vencido para reutilizá-lo. Já a água oxigenada serve para matar micro-organismos e recuperar produtos em deterioração. Isso, sem falar da soda cáustica, que pode conter metais pesados, alguns inclusive cancerígenos”.
(Marcello Campos)
Voltar Todas de Rio Grande do Sul
Os comentários estão desativados.