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Tecnologia Os países europeus iniciaram um movimento em direção à soberania digital, buscando soluções locais para fornecer recursos de nuvem e deixar de depender de empresas americanas

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Big techs americanas proveem quase 80% dos serviços de nuvem usados por governos europeus. (Foto: Reprodução)

Na era da inteligência artificial, com dados sensíveis armazenados na nuvem, quem consegue controlar o uso desse tipo de recurso tem uma arma na mão. Empresas como as americanas Meta, Google, Oracle, Microsoft e Amazon detêm mais de 65% do mercado global de armazenamento em nuvem. Na Europa, segundo pesquisa da ONG Future of Technology Institute (FoTI), quase 80% dos serviços de nuvem utilizados pelos governos são fornecidos por big techs americanas.

Por isso, países europeus começaram um movimento em direção à soberania digital, em busca de soluções locais para fornecer recursos de nuvem, plataformas de comunicação e de trabalho que façam o continente depender menos das empresas americanas, hoje as principais provedoras do serviço.

A França tem liderado o debate sobre uma transição para soluções europeias. Seu governo criou um ministério para lidar com as transformações digitais e de IA em sua economia.

Utilizar um serviço de nuvem estrangeiro para armazenar e processar dados governamentais significa colocar informações em um servidor que opera no exterior – e obedece a leis diferentes. A operação das big techs americanas e o acesso a informações que essas empresas armazenam são regidos pelas leis dos EUA.

“Os líderes de defesa da Europa não podem mais se dar ao luxo de ignorar o risco de um ‘botão de desligamento’ na nuvem. O governo Trump e seus apoiadores nas grandes empresas de tecnologia transformaram nossas dependências tecnológicas em armas – e a situação só tende a piorar. Trazer a nuvem da Europa para o território europeu não é mais uma opção, é uma necessidade”, afirmou, em um comunicado, a diretora executiva do FoTI, Cori Crider.

A preocupação, segundo o instituto, justifica-se pelo Cloud Act, uma lei americana cujo texto determina que qualquer dado processado por uma big tech americana poderá ser requisitado e acessado caso seja considerado necessário em um processo de investigação. Isso significa que, se algum país europeu tiver alguma informação armazenada em um desses serviços, o governo americano pode ter acesso em um processo jurídico, independentemente de o governo estrangeiro autorizar ou não.

De acordo com a conselheira econômica da Comissão Europeia Angela Calvo, professora da Universidade de Reading, no Reino Unido, dois fatores fizeram com que a soberania digital escalasse a lista de prioridades de governos por toda a Europa: a onipresença das plataformas na vida social e econômica e a importância geopolítica do controle dos dados de cada país.

“O primeiro fator fez com que os países percebessem o quão dependentes são de um punhado de grandes empresas privadas capazes de paralisar uma economia se decidirem interromper a oferta de seus serviços”, apontou Calvo. “O segundo aumentou a consciência de que governos estrangeiros têm capacidade de usar vulnerabilidades digitais domésticas para exercer poder.”

A retórica agressiva do governo Trump em relação à Europa é um dos elementos que têm acelerado os projetos de internalização dos serviços de nuvem. A ameaça de anexação da Groenlândia, por exemplo, mesmo tendo pouca relação com o ambiente digital, é indicada por analistas como um dos eventos que levaram as autoridades europeias a repensar as plataformas em que seus sistemas de defesa se baseiam.

Além disso, Donald Trump tem sido enfático ao defender tarifas para países que criarem legislações mais rígidas sobre big techs americanas. A União Europeia é uma das regiões que mais aprovam regras relacionadas ao uso de redes sociais, principalmente por crianças e adolescentes – e defende controles financeiros sobre gigantes da tecnologia, seja contra ações monopolistas ou por falta de transparência nos algoritmos e venda de publicidade e dados.

Em entrevista ao jornal britânico The Telegraph, Trump ameaçou retaliações contra as iniciativas europeias. As próprias big techs também poderiam aplicar medidas retaliatórias. Em 2023, a Meta ameaçou deixar a Europa caso não pudesse transferir dados das contas dos usuários para os EUA, uma medida que se tornou proibida com a lei de proteção de dados europeia – semelhante à brasileira Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.

Alcançar a soberania digital, porém, não é rápido nem barato. Segundo a ONG Center for European Policy Analysis, uma transição completa de infraestrutura, plataformas e especialistas custaria à Europa cerca de US$ 3 trilhões. Em esforços de defesa, a Europa aumentou o gasto com soluções de nuvem menos dependentes dos EUA: em 2022, cerca de ¤ 262 bilhões foram aplicados; em 2025, esse montante alcançou ¤ 381 bilhões.

A partir de 2027, o governo francês deixará de usar plataformas de videoconferência da Microsoft e do Google, passando a utilizar o Visio, uma ferramenta desenvolvida localmente que já vem sendo implementada.

O Windows, sistema operacional da americana Microsoft, também será substituído por aplicações semelhantes em Linux, que opera em código aberto e permite que os governos personalizem e atualizem softwares de acordo com suas necessidades. O sistema de código aberto também não permite que nenhuma empresa detenha o controle dos dados e de sua utilização.

“Vivemos em um mundo com muitas incertezas e instabilidades, e essa agenda acelerou, especialmente na Europa, porque por muito tempo a defendemos com força, mas não fomos ouvidos tanto quanto gostaríamos. O contexto mostrou – particularmente na área da defesa, mas também em outros setores, como energia, saúde e, obviamente, tecnologia – o quanto precisamos construir nossa própria soberania”, afirmou a secretária francesa para tecnologia digital e IA, Clara Chappaz, em entrevista ao Estadão.

Em março, a Holanda também deu os primeiros passos para se desvencilhar da dependência dos EUA. O Parlamento holandês aprovou pedidos para discutir a questão e criar uma estrutura de dados inteiramente nacional.

Os governos da Itália, da Alemanha e da Espanha, entre outros, também estão se movimentando para contratar empresas locais para diversificar a oferta de plataformas.

O relatório da ONG Future of Technology aponta que, dentre os 28 países europeus analisados, 16 estão em risco em relação a uma interrupção abrupta de serviços de armazenamento em nuvem, o chamado “kill switch”, ou botão de desligamento.

Especialistas acreditam que o mecanismo pode ser usado para paralisar os serviços das big techs em determinados países caso o governo americano assim determine. Se um governo tiver esse tipo de serviço interrompido, ficará sem acesso a comunicação, aos seus documentos, e, possivelmente, a sistemas inteiros de saúde, finanças e de transporte.

Outros sete países correm risco moderado por depender indiretamente das infraestruturas de armazenamento em nuvem localizadas nos EUA. Esses governos têm contratos com empresas europeias que construíram seus sistemas de nuvem por meio de ferramentas americanas.

De acordo com o estudo do FoTI, somente a Áustria possui uma solução soberana local de armazenamento em nuvem que permite ao país ser totalmente independente de plataformas estrangeiras. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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