Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 8 de janeiro de 2018
É ilusão esperar que o desenvolvimento de medicamentos ou vacinas será capaz de derrotar a dengue e a zika, defende o infectologista norte-americano Michael Callahan, da Escola Médica de Harvard. As interações complexas entre os diferentes vírus que causam ambas as doenças provavelmente inviabilizam esse tipo de solução, e o melhor caminho é investir em tecnologias precisas de combate ao transmissor das moléstias, o mosquito Aedes aegypti.
“Eu sou médico, então o que acontece no caso dessas doenças é que eu preciso receitar um tratamento que valha não para uma pessoa só, mas para uma cidade inteira”, disse Callahan ao jornal Folha de S.Paulo em visita recente ao Brasil. “Em vários lugares da Ásia, é possível que as estratégias de larga escala, como o uso de inseticidas, tenham piorado o problema em vez de melhorá-lo. Não é fácil acertar essa coreografia – às vezes os efeitos das diferentes estratégias acabam se anulando.”
Callahan é o executivo-chefe da Fundação Zika, cujo objetivo é arquitetar parcerias internacionais que sejam eficazes no combate à doença. Ele esteve em Piracicaba (interior paulista) para conhecer a fábrica de mosquitos geneticamente modificados da empresa de biotecnologia Oxitec.
Os Aedes transgênicos machos desenvolvidos pela companhia, que estão passando por testes em municípios como Juiz de Fora (MG) e Piracicaba, acasalam com as fêmeas selvagens da espécie e dão origem a filhotes inviáveis, que não chegam à fase adulta. Com isso, a população de mosquitos tende a cair bastante, o que, espera-se, também reduziria a transmissão das doenças carregadas pelo A. aegypti.
“Os resultados que eles nos mostraram aqui parecem bastante promissores, e já tivemos algumas ideias a respeito de como otimizar o processo e torná-lo ‘escalável’, ou seja, para que a produção possa ser descentralizada e ajustada de acordo com o tamanho de cada cidade”, disse. Por ora, não há evidências definitivas de que a diminuição da população dos mosquitos leva a menos transmissão de doenças, embora alguns resultados preliminares em Piracicaba sugiram isso.
Para Callahan, de qualquer maneira, a conta faz sentido porque, para começo de conversa, uma proporção relativamente pequena dos insetos carrega o vírus, mesmo num contexto de epidemia – a maioria deles está “limpa”, o que sugere que uma massa crítica grande de A. aegypti é necessária para manter os vírus circulando.
“Outro ponto importante é que, diferentemente do que acontece no caso dos inseticidas, os mosquitos transgênicos afetam apenas uma espécie. Se você se propõe a matar todos os Aedes com inseticidas, inevitavelmente vai afetar as libélulas e outros insetos predadores, ou mesmo as lagartixas que comeriam as fêmeas de mosquitos que estão cheias de sangue e prestes a botar seus ovos”, afirmou. “Isso”, prossegue o infectologista, “faz com que, paradoxalmente, a contagem de mosquitos numa casa até aumente depois que passa o efeito inicial do inseticida, porque nós eliminamos as espécies que naturalmente controlam aquela população.”
Finalmente, a vantagem de pensar em soluções que afetem o inseto vetor de maneira específica é que elas têm o potencial de barrar todas as doenças que ele transmite hoje – só no Brasil, a lista inclui os quatro tipos da dengue, zika, febre amarela e chikungunya – e as que ele ainda pode vir a transmitir. “Com a globalização, a presença do Aedes nas Américas significa que ele está pronto para transmitir uma grande variedade de vírus africanos e asiáticos que ainda não chegaram até aqui”, disse.
Para Callahan, o uso de vacinas contra a dengue e a zika deve ser visto com cuidado por causa da relativa proximidade genética entre as doenças, a qual, por sua vez, leva a uma imunidade cruzada parcial entre elas. Na prática, isso significa que, no organismo de uma pessoa que já teve um dos vírus, o sistema de defesa fica “pré-programado” para lidar com o outro – mas de uma maneira pouco eficaz, que pode até potencializar os efeitos nocivos do novo invasor. Algo muito similar poderia acontecer no caso de uma vacina. “Isso é arriscado porque vacinamos pessoas sadias, que não podem ser ‘desvacinadas’ mais tarde”, argumenta o infectologista.
No caso dos remédios, o grande problema é que os vírus da dengue e seus parentes costumam se multiplicar de tal maneira no organismo dos hospedeiros que a grande maioria das partículas virais não tem grande capacidade de infectar as células, diz ele – elas estão ali apenas para enganar o sistema imune, enquanto uma pequena minoria dos vírus mantém a infecção acontecendo. Isso significa que um medicamento projetado para exterminar as formas mais comuns do vírus talvez não afete as variantes do patógeno que de fato estão causando a doença – e podem até aumentar a frequência delas na população viral, com efeitos mais severos sobre os doentes no futuro.
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