Sexta-feira, 14 de Agosto de 2020

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Capa – Caderno 1 Países se unem para desvendar os mistérios do Atlântico Sul

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O aquecimento prejudica a vida marinha. (Foto: Reprodução)

Uma imensa região escura, inóspita, repleta de riquezas e habitantes desconhecidos, cuja exploração será feita por robôs. Parece a descrição de um planeta. São, na verdade, as profundezas do Oceano Atlântico Sul. Ao contrário de sua porção Norte, que banha o litoral de países desenvolvidos, ele conta com poucos sensores e há diversas lacunas em seus dados históricos. Para suprir informações básicas, como a dispersão de poluentes e a biodiversidade ali presente, diversas nações, entre elas o Brasil, criaram o Centro Internacional de Pesquisa do Atlântico (AIR Center).

Cientistas envolvidos com a instituição estão organizando uma série de reuniões para definir quais pesquisas terão prioridade. Um dos encontros preliminares aconteceu no mês passado, no Rio. Em maio, outro debate em Cabo Verde definirá que equipes serão responsáveis pelos levantamentos de cada área e como será a cooperação entre os grupos. Até países distantes do oceano, como China, Índia e Rússia, acompanharão os trabalhos, cientes de que as descobertas podem trazer novas oportunidades de negócios.

Um dos idealizadores do projeto, Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, destaca que os satélites são cada vez mais baratos e têm melhor resolução. Por isso, devem contribuir para a realização de pesquisas nos países em desenvolvimento:

“Não se pode pensar em uma estratégia de desenvolvimento sem considerar o Atlântico Sul, que tem sido sistematicamente desvalorizado”, ressalta. “Podemos construir observatórios em ilhas como Cabo Verde e Fernando de Noronha e usar a tecnologia oceânica para elaborar estudos. Um dos principais tópicos é como os resíduos despejados no oceano podem afetar a alimentação dos animais marinhos e a biodiversidade.”

Coordenador do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia da Coppe/UFRJ, Luiz Landau sublinha que o Brasil não tem muita noção sobre como é o assoalho do oceano, apesar de explorar o pré-sal a 300 quilômetros de distância da costa.

“Se não conhecemos o oceano que está tão próximo a nós, estamos fadados a cometer erros de planejamento e operação”,  alerta. “Antes de explorar as riquezas do oceano, precisamos saber qual será o impacto de cada intervenção. Às vezes podemos provocar um dano ambiental irrecuperável ou que demore décadas até ser contido.”

Para Landau, algumas obras promovidas no litoral não seriam feitas se houvesse mais dados sobre o mar. É o caso de desvio de rios e mudança nos bancos de areia de praias.

Sensores no mar

A quantidade de equipamentos no Atlântico Sul dedicados a medições como mudanças nas correntes marítimas é “insignificante” se comparado ao visto no Norte do oceano, afirma o cientista. A falta de um mapa do fundo do mar prejudica a economia nacional e aumenta a vulnerabilidade do país a eventos climáticos extremos.

“O clima é definido pela interação do mar e a atmosfera. Por isso, precisamos saber como é o oceano”, explica. “Se entendemos a sua dinâmica, sabemos como pode influenciar fatores como a agricultura, a qualidade de vida nas cidades, a saúde da população. Vale lembrar que uma parcela expressiva dos brasileiros vive próximo ao litoral e que devemos fazer um planejamento a médio e longo prazo para nos proteger de catástrofes, como o aumento do nível do mar.” Esta preocupação também é vista em muitos países da costa africana, e por isso eles também estão engajados nas pesquisas.

Os fenômenos El Niño e La Niña puseram o Pacífico no radar de centros de pesquisa internacionais, já que ambos têm efeito em todo o planeta e ocorrem a partir da alteração da temperatura da água deste oceano. No entanto, o modo como o Atlântico Sul pode influenciar o comportamento dos termômetros ainda não foi alvo de muitas pesquisas.

No litoral fluminense, a falta de informações é ainda mais danosa. O El Niño, ao alterar as temperaturas, afeta o movimento de ressurgência, um fenômeno que ocorre na região de Cabo Frio e empurra as águas geladas do fundo para a superfície. A distribuição de nutrientes na costa é impactada, prejudicando atividades econômicas como a pesca.

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