Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 16 de abril de 2020
Sepultados sem velório, em caixão fechado e isolados em seus momentos finais, os mortos pela Covid-19 no Brasil começam a ajudar os médicos a aprender sobre a doença e a impedir que mais pessoas morram. Usando uma estratégia de autópsia minimamente invasiva, para evitar o contágio, cientistas da equipe de Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) se defrontaram com a “enorme agressividade do coronavírus” e encontraram pistas de seus esconderijos.
Ele apresentou os primeiros resultados em uma sessão científica virtual na Academia Nacional de Medicina (ANM), da qual é membro. O trabalho foi realizado com as médicas e pesquisadoras da USP Marisa Dolhnikoff e Renata Monteiro. Leia abaixo perguntas e respostas sobre o procedimento:
– Como é a autópsia minimamente invasiva? “Foi a forma que encontramos de investigar os corpos de vítimas dessa doença altamente contagiosa. As autópsias convencionais estão paradas. Então usamos tomografia, ultrassom e microscopia. Imagens de ultrassom nos guiam para retirar, por meio de punção por agulha, amostras dos órgãos. As amostras são depositadas num biorepositório para análises futuras. Já tínhamos empregado esse método antes.”
– Em que circunstâncias? “Já usamos essa técnica para analisar o cérebro de vítimas do mal de Alzheimer. Também, por exemplo, em casos de jovens pacientes com câncer, que não sobreviviam ao transplante. E temos o duvidoso privilégio de esta ser a terceira vez em que estudamos doenças infecciosas com autópsias minimamente invasivas.”
– Quais foram as anteriores? “A primeira foi com o H1N1, em 2009. Fizemos mais de mil autópsias, é a maior amostra do mundo. E estamos observando que o coronavírus é mais agressivo do que o H1N1. Ele promove uma depressão muito grande do sistema de defesa. O corpo fica entregue à própria sorte.”
– E a segunda vez? “A segunda vez foi com a febre amarela. Fizemos 80 autópsias. As vítimas tinham claros sinais de tempestade imunológica, a chamada tempestade de citocinas. Ainda temos dúvidas sobre as tempestades de citocinas na Covid-19. As autópsias nos mostram informações que de outra forma não acessaríamos. Por isso, as famílias que autorizam as autópsias fazem um gesto fundamental. É uma doença contagiosa, os órgãos não poderiam ser mais usados. Então, essas famílias doam conhecimento.”
– E o que já aprenderam? “Estamos no início. Mas já observamos enorme destruição, o coronavírus ataca com enorme agressividade.”
– Em quanto tempo os resultados ficam prontos? “Temos procurado ser os mais ágeis possível. O resultado fica pronto de um dia para o outro. Repassamos os resultados em reuniões regulares com o pessoal que está em atendimento nas UTIs.”
– Quantas autópsias já realizaram? “Já fizemos 15 autópsias, apresentamos os resultados de dez delas. Mas a nossa meta é chega a cerca de 60. Com elas, queremos dar aos médicos uma chance de ver o que acontece dentro das células dos pacientes.” As informações são do jornal O Globo.
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