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Esporte Pelé 80 anos: posições do Rei sobre racismo refletem mudanças no esporte

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O Rei do futebol poderia ter vestido o uniforme do time pernambucano. (Foto: Divulgação)

Se, dentro dos campos, Pelé encontrava todo tipo de solução para fugir da marcação adversária, fora deles se viu encurralado por um dilema: ao mesmo tempo em que sofria com o racismo, o Rei do Futebol conviveu com críticas por sua postura em relação a ele. Um comportamento que, às vésperas de seu aniversário de 80 anos e sob a luz dos novos tempos, passa por um processo de releitura.

Não se trata de negar as escolhas de Pelé. Numa delas, recusou o convite para receber uma homenagem da comunidade negra do Harlem, bairro de Nova York conhecido como centro da efervescência cultural afro-americana. O episódio ocorreu em 1966, durante viagem do Santos aos EUA. No ano seguinte, ele explicaria ao Globo as razões.

“Não posso dizer se o pedido para que comparecesse sozinho ao almoço implicava em problemas raciais. Por via das dúvidas, agradeci e permaneci no hotel com meus companheiros brancos e pretos, juntos como no Brasil e sempre amigos.”

Pelé defendia a ideia de que havia democracia racial no Brasil. E foi com base nela que, por muito tempo, esquivou-se de uma postura mais combativa. É importante ressaltar que essa era a visão que vigorava na época.

“Nos anos 1960 e 1970, embora no ambiente acadêmico a discussão em torno da democracia racial já fosse construída de forma crítica, o brasileiro médio ainda acreditava que vivíamos numa sociedade livre de tensões raciais, na qual negros e brancos conviviam sem maiores conflitos. Logo, o Pelé expressava o ponto de vista da época dele”, defende o historiador pela Universidade de São Paulo Marcel Tonini.

Vale lembrar ainda que o Brasil dos anos 60 e 70 não era receptivo com quem adotasse postura mais combativa. Nomes que aderiram ao movimento negro de forma mais contundente eram tachados de rebeldes. Foram os casos de Paulo César Caju e de Reinaldo.

“Ele sabia muito bem o contexto da época, o risco que corria por qualquer posicionamento que tomasse”, diz Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. “Em termos do que poderia ser feito, ele fez. A questão é que ele não fez o que gostariam.”

Mudança com as redes sociais

Pelé tinha consciência de sua força. Foi um dos primeiros atletas a se enxergar enquanto marca e a explorá-la de forma profissional. Nos anos 1960, fez acordos publicitários e assinou contratos com produtoras cinematográficas. Na década seguinte, abriu um escritório para cuidar de seus negócios e negociou os direitos de exploração de seu nome.

Ele usou sua voz para criticar guerras e pedir por mais atenção ao combate à fome. Mas, do ponto de vista comercial, o racismo não era uma causa que demandava posicionamentos.

“Nessa época as marcas tinham medo de se posicionar e brigar com parte do seu público. Isso tem a ver com o amadurecimento da sociedade. E aí não falamos só de racismo. Incluo igualdade de gênero, sustentabilidade… Questões que se tornaram mais frequentes nas discussões à medida em que as pessoas passaram a ter uma forma de expor suas vozes”, diz Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da pós-graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

“Isso se deve muito às redes sociais, que se mostraram uma forma das pessoas se organizarem e viraram um instrumento de pressão que não havia antes. Hoje, ficar em cima do muro não é mais uma opção para as marcas.”

Em 1978, o próprio Pelé viria a admitir que ficar em cima do muro era uma opção consciente. Ao Globo, ele explicou sua estratégia.

“Muitas vezes comentam que não pego a bandeira para atacar o racismo ou tomar posição ante a situação política do país (…) Sinto-me bem melhor e acho que sou mais útil assim, pois posso fazer qualquer coisa pelas duas partes. Sendo radical começa-se a ser tolhido por um certo grupo de pessoas, o que pode reduzir meu raio de ação e minha maneira de pensar.”

Todo este zelo não o impediu de ser vítima do racismo quando, após a Copa de 1970, decidiu se aposentar da seleção. Ali, viu o regime militar (do qual sempre manteve proximidade) se voltar contra ele. Afinal, o sucesso brasileiro na Copa de 1974 era parte do projeto político do governo.

Pelé não queria que um eventual fracasso no Mundial comprometesse sua imagem. Precisava dela pois, a partir daquele momento, estava mais voltado para a carreira enquanto homem de negócios e garoto-propaganda. Por muito tempo, este lugar não lhe foi permitido enquanto homem negro. O resultado foi o esvaziamento de sua despedida dos campos e o início de uma perseguição por parte da imprensa, que estimulou a imagem do mercenário. A derrota na Copa foi atribuída à sua ausência.

“Tudo o que ele fez ou tentou fazer fora desse lado atleta sempre recebeu muitas críticas”, resume a jornalista Angélica Basthi, autora do livro “Pelé, estrela negra em campos verdes” (Ed. Garamond). “E muito por conta desse estereótipo que se tinha e se tem do homem negro. De acharem que são desqualificados.”

O tempo moldou tanto Pelé quanto aqueles que o criticaram por omissão. Nos anos 90, ao tomar posse como ministro dos Esportes, defendeu que negros votassem em negros por mais representatividade – o que causou incômodo à classe política. Já nos anos 2000, admitiu em entrevistas que foi chamado de macaco em campo. E, mais recentemente, sua conta nas redes sociais aderiu aos protestos pela morte do negro George Floyd.

“A gente precisa dar ao Pelé o lugar que ele merece. É preciso reler sua história com os olhos que a História nos oferece, não apenas com base nos posicionamentos dele”, complementa Angélica. “Ele é um mito dentro do futebol. E esse mito é um homem negro com todas as suas complexidades.”

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