Domingo, 14 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 7 de dezembro de 2015
O sobrepeso afeta a informação hereditária do esperma, o que pode explicar por que filhos de pais obesos são mais predispostos a obesidade. A conclusão é de um estudo publicado na revista Cell Metabolism.
O levantamento, realizado por um grupo de cientistas sob a coordenação de Romain Barrès, da Universidade de Copenhague (Dinamarca), revelou que o esperma de homens obesos possui marcadores epigenéticos específicos em regiões do genoma associadas ao controle do apetite. Essas alterações não ocorrem no esperma de homens com peso normal. Epigenética é a informação contida em parcelas do genoma que não fazem parte da sequência do DNA, mas que tem papel na regulação dos genes e é passível de ser herdada.
Os cientistas analisaram e compararam as informações epigenéticas obtidas no esperma de 13 homens dentro do peso e 10 homens obesos. Na segunda fase do levantamento, eles acompanharam seis homens submetidos a cirurgias de redução de peso para descobrir se o procedimento afetaria as características do esperma.
Modificações no DNA.
Uma média de 5 mil modificações estruturais no DNA de células do esperma foram observadas antes da cirurgia, logo depois e um ano mais tarde. Segundo os autores, ainda será preciso realizar mais pesquisas sobre o significado dessas diferenças e sobre seus efeitos nos filhos. Mas o trabalho traz a primeira prova de que o esperma conduz informações sobre a saúde masculina.
“Nossa pesquisa poderia levar a uma mudança de comportamento, em especial no comportamento do pai antes da gravidez. O senso comum diz que quando uma mulher está grávida ela deve tomar cuidados – como não beber álcool e ficar longe de poluentes, por exemplo –, mas o nosso estudo mostra que essas recomendações deveriam ser seguidas por homens também”, declarou Barrès.
Para conceber o estudo, Barrès se inspirou em um trabalho de 2005, realizado com moradores de uma pequena vila na Suécia, que havia passado por um período de fome. A pesquisa mostrava como a disponibilidade de alimentos para essas pessoas se correlacionava com o desenvolvimento de doenças cardíacas e metabólicas em seus netos.
Conforme o levantamento, o estresse nutricional dos avós provavelmente passou para as gerações seguintes por meio de marcadores epigenéticos, que têm a capacidade de controlar como os genes são expressos. O mesmo já havia sido demonstrado em roedores e em insetos.
Na nova análise, a equipe de Barrès comparou marcadores epigenéticos específicos na ejaculação de homens com peso normal e com obesidade. Segundo os autores, o estudo teve foco em homens porque é bem mais fácil obter esperma que óvulos. Nenhuma diferença foi notada nas proteínas que envolvem o DNA, mas houve variações em outras partes do genoma. A próxima questão seria descobrir se essas diferenças eram produto da obesidade ou do estilo de vida. Isso levou os cientistas a investigar como a cirurgia bariátrica afeta a epigenética do esperma. A conclusão foi que o peso é mesmo o fator determinante nas alterações.
Razões evolutivas.
Os cientistas especulam que provavelmente há razões evolutivas que expliquem porque o sobrepeso dos pais pode ser passado aos filhos. A hipótese de Barrès é que, em tempos de abundância, trata-se de uma maneira instintiva de incentivar os filhos a comerem mais. “Foi apenas recentemente que a obesidade deixou de ser uma vantagem. Há poucas décadas, a capacidade de armazenar energia era uma vantagem para resistir a infecções e períodos de fome”, explicou.
Os comentários estão desativados.