Quarta-feira, 17 de junho de 2026

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Edson Bündchen Poeira cósmica ou almas eternas?

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Se não há imortalidade da alma, então não há virtude, o que quer dizer que tudo é permitido. Talvez inspirados pelo trecho acima, de Fiodor Dostoiévski em “Os Irmãos Karamazov”, pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora-MG, reuniram centenas de trabalhos científicos feitos ao redor do mundo sobre assuntos que geralmente são considerados sobrenaturais e, portanto, distantes da academia. A intenção da obra foi reunir casos de memórias de vidas passadas, vivências fora do corpo, mediunidade e experiências de quase morte. Você pode estar pensando que ciência e espiritualidade são por demais bem segregadas para serem objeto de pesquisa em um centro de estudos médicos, marcadamente distante de temas que envolvem a fé ou conjecturas sobre a existência de vida após a morte. Contudo, definir assuntos por demais banais para serem levados a sério ou temas sérios demais para serem ignorados parecem ser desafios cada vez maiores e mais frequentes no mundo fragmentado e caótico que vivemos.

A paranormalidade é tão antiga quanto atraente. Até por isso, especular sobre o devir nunca esteve apenas circunscrito a mosteiros, sinagogas e igrejas, mas também à filosofia e a cabeças privilegiadas, como a de Einstein, por exemplo, para quem “a ciência sem religião é manca, a religião sem ciência é cega”. Essa afirmação sugere que a ciência e a religião não são necessariamente opostas uma à outra, mas que ambas têm seus próprios domínios de validade e podem se complementar, conforme atestam os autores de “Ciência da vida após a morte”. Kierkegaard, filósofo importante da Dinamarca, considerado o primeiro existencialista, dizia que a razão pura é incapaz de compreender a experiência humana, e toda a filosofia que não compreender as condições humanas e suas derivações é falha, e não há nada mais humano do que especular sobre o amanhã e sobre o nosso destino.

Mas existe outra construção possível, e que não desafia a lógica e a racionalidade, mas às utiliza como suporte para conjecturar, tudo isso sem apelar para o cálculo oportunista de Pascal e o risco de danação eterna no inferno para os não crentes. Nessa perspectiva nada modesta, a primeira vítima é a teoria do “big-bang” que atribui ao universo cerca de 14 bilhões de anos, teoria hoje ainda dominante junto a astrônomos e astrofísicos que pesquisam o assunto. Entretanto, o “big-bang” vacila diante da pergunta mais profunda para teístas e ateístas, sejam eles cientistas, filósofos ou curiosos de plantão: “por que existem as coisas e não simplesmente o nada?”. A gama de teorias, obviamente aquelas que fogem da ideia de um deus como fonte primordial de tudo, inclusive das dimensões tempo, espaço e matéria, são diversas e controversas. Entretanto, no limite, todas esbarram na pergunta transcendental e até certo ponto aterradora: “por que existe algo e não simplesmente o nada?”

Desaparelhados cognitivamente para tamanha obra, podemos especular livremente, crer ou descrer, mas pouco afirmar. O próprio Nietzsche, reclamava, diante do necessário enfrentamento do niilismo que “alguns milênios serão necessários para o mais potente dos pensamentos”. Até que o fator tempo não seja suficientemente descortinado, o eterno retorno, enquanto possibilidade cosmológica de uma eternidade possível continuará a instigar mentes inquietas e não capturadas pelo doce aconchego da fé. Diante do insondável e dos avanços da ciência que hoje a todos espantam, fascinam e amedrontam, as elucubrações não cessam. Tomado como possível, o panorama astrofísico do tempo eterno sugere que todos os eventos se repetirão num balé infinito. Tudo o que foi será novamente. Nesse horizonte sem fim, as combinações únicas e inauditas que nos fizeram existir ocorrerão novamente e novamente e novamente. Mesmo que não queiramos ou saibamos, as leis das probabilidades, num cenário onde o tempo é perpétuo, farão com que você exista também para sempre. O que você apostaria? Poeira cósmica ou almas eternas?

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