Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 16 de fevereiro de 2024
A fala do general Augusto Heleno na reunião ministerial de 5 de julho de 2022 sobre infiltrados na Abin (Agência Brasileira de Inteligência) reforça a investigação da “Abin Paralela” que apura se agência, entre outras ilegalidades, espionou adversários de Jair Bolsonaro durante o período em que o ex-presidente esteve no comando do País.
Para os investigadores, a fala do ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) demonstra que ele seria destinatário de informações enviesadas e ilegais produzidas pela Abin, sendo conivente e apoiando atuações clandestinas.
Heleno terá de explicar à PF (Polícia Federal) sua fala e outros pontos que podem esclarecer a investigação da “Abin Paralela” em breve, quando for interrogado. Dentro da investigação, será objeto de apuração se agentes da Abin estavam infiltrados em campanhas, inclusive o uso de verbas em áreas de milícia.
Na reunião ministerial com a presença de Bolsonaro, o general afirmou que se “tiver que virar a mesa é antes das eleições”. No encontro, Heleno também afirmou que era necessário agir “contra determinadas instituições e contra determinadas pessoas”.
A declaração ocorreu durante reunião realizada em julho de 2022. Um vídeo da reunião foi obtido pela Polícia Federal (PF) em um computador apreendido na casa do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.
A transcrição da reunião é citada na decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação da PF dessa quinta-feira (8), que investiga uma tentativa de golpe de Estado e mirou Bolsonaro e aliados. Heleno foi alvo de mandados de busca e apreensão.
“Não vai ter revisão do VAR. Então, o que tiver que ser feito tem que ser feito antes das eleições. Se tiver que dar soco na mesa é antes das eleições. Se tiver que virar a mesa é antes das eleições”, declarou Augusto Heleno na ocasião, segundo a transcrição.
Para a PF, a fala “evidencia a necessidade de os órgãos de Estado vinculados ao governo federal atuarem para assegurar a vitória do então presidente”.
Em seguida, também de acordo com a PF, o “então ministro do GSI afirma de forma categórica que deveriam agir contra determinadas instituições e pessoas”.
“Eu acho que as coisas têm que ser feitas antes das eleições. E vai chegar a um ponto que nós não vamos poder mais falar. Nós vamos ter que agir. Agir contra determinadas instituições e contra determinadas pessoas. Isso pra mim é muito claro”, concluiu Heleno.
“Dois pontos para tocar aqui, presidente. Primeiro, o problema da inteligência. Eu já conversei ontem com o Victor [Felismino Carneiro], novo diretor da Abin, nós vamos montar um esquema para acompanhar o que os dois lados vão fazer”, declara Heleno.
“O problema todo disso é se vazar qualquer coisa. Muita gente se conhece nesse meio. Se houver qualquer acusação de infiltração desse elemento da Abin em qualquer um dos lados…”, prossegue Heleno, antes de ser interrompido por Bolsonaro.
O então presidente da República pede que Heleno interrompa a fala naquele momento – e diz que, se há medo de vazamentos, o assunto deve ser tratado em reunião privada, longe dos demais ministros.
“General, eu peço que o senhor não fale por favor. Peço que o senhor não prossiga mais na sua observação, não prossiga na sua observação. Se a gente começar a falar ‘não vazar’, esquece. Pode vazar. Então a gente conversa particular na nossa sala sobre esse assunto”, diz Bolsonaro.
À frente do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, a quem está subordinada a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o general da reserva Augusto Heleno se tornou uma das principais vozes do Palácio do Planalto, diferenciando-se de seus antecessores. Era figura assídua nas transmissões ao vivo feitas pelo presidente no Facebook. As informações são do portal de notícias G1 e do jornal O Globo.
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