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Mundo Procurador-geral afastado do cargo em El Salvador investigava negociações do presidente do país com uma gangue

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Raúl Melara (foto) apurava reportagem sobre tratativas de Nayib Bukele com uma quadrilha para reduzir criminalidade. (Foto: EBC)

Destituído no último sábado pelo Congresso de El Salvador, o procurador-geral Raúl Melara investigava a ligação entre o presidente do país, Nayib Bukele, e a gangue Mara Salvatrucha – popularmente conhecida como “MS-13”.

O inquérito havia sido aberto em setembro de 2020, após uma reportagem da imprensa local apontar encontros de funcionários do alto escalão do governo com dirigentes da quadrilha, um dos grupos criminosos responsáveis pela onda de violência na América Central.

Bukele supostamente negociava com a MS-13 para diminuir os homicídios no país e obter apoio para a eleição parlamentar realizada em fevereiro, na qual o seu partido, Novas Ideias, acabou conquistando 56 das 84 cadeiras.

Em troca, oferecia regalias aos criminosos, desde a liberação da entrega de “fast-food” para presos nas cadeias à revogação de medidas do próprio governo – como a decisão, em abril de 2019, de manter membros de gangues rivais dentro da mesma cela, além de suavizar o regime de segurança máxima.

Após a publicação de uma reportagem sobre o tema no jornal “El Faro”, Bukele negou qualquer tipo de negociação com a MS-13 e chamou as denúncias de “farsa”:

“Eles nos acusam de violar os direitos humanos dos terroristas e agora dizem que lhe damos privilégios?”, escreveu o presidente no Twitter, compartilhando fotos de presos sentados sem blusas sob forte escolta policial. Mostrem-me um privilégio. Um só”.

A reportagem, que teve acesso a documentos oficiais, trazia informações detalhadas de encontros entre funcionários do governo e membros da MS-13 — como a hora de entrada e saída das autoridades das prisões, quais celas foram visitadas, até relatos dos próprios presos sobre as conversas.

“Tivemos acessos aos livros da movimentação nas prisões de segurança máxima, aos ofícios assinados e selados por dirigentes das cadeias e aos documentos da inteligência penitenciária”, relatou o repórter responsável pela investigação, Óscar Martínez.

“Todos mostravam que funcionários do governo de Bukele entraram nas prisões com pessoas encapuzadas, incluindo um líder da Mara Salvatrucha 13, para dar ordens que deveriam ser postas em prática na rua”, acrescentou.

A Procuradoria-Geral de El Salvador investigava as denúncias da reportagem. Houve, de fato, redução dos homicídios em 2020, e a taxa de mortes diárias chegou à média de 3,67, segundo a Polícia Civil Nacional — um índice 45% menor do que o do ano anterior.

Ainda segundo Martínez, tradicionalmente o apoio eleitoral das gangues a candidatos em El Salvador não se dá só por meio da redução dos homicídios:

“As gangues já influenciaram eleições de duas formas: impedindo de votar ou confiscando os documentos necessários para votar de pessoas que elas sabem que são apoiadores de candidatos de oposição aos que apoiam, ou impedindo políticos de fazer campanha eleitoral nos bairros que dominam”.

Como as investigações da Procuradoria Geral ainda não foram concluídas, não é possível afirmar que as supostas negociações de Bukele com a MS-13 influenciaram no resultado da eleição. No entanto, com a destituição de Merala, há um risco que o inquérito não seja levado a diante.

Situações anteriores

Negociar com as pandillas, com são chamadas as gangues no país, não é um fato novo em El Salvador. No passado, políticos e funcionários de governos tanto da Aliança Renovadora Nacional, de direita, quando da FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional), de esquerda, foram investigados e processados por supostos acordos com as quadrilhas em troca de benefícios e apoio eleitoral. Martínez prossegue:

“Todos os acordos que os políticos fizeram com membros de gangues, de forma oculta, fracassaram e resultaram no ano mais violento de El Salvador, quando, em 2015, tivemos 103 homicídios para cada 100 mil habitantes”.

Um dos casos mais notórios é do ex-presidente Mauricio Funes, da FMLN, que governou El Salvador entre 2009 e 2014. Ele e o seu então ministro da Defesa, David Munguía, foram condenados por terem negociado, entre 2012 e 2014, com a MS-13 e o Bairro 18, outro grupo criminoso, para que os homicídios caíssem no país.

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