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Política Proposta de emenda à Constituição do voto impresso expõe divisão em partidos de esquerda na Câmara

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Foram 229 votos a favor do voto impresso e 218 contra. O mínimo para a aprovação eram 308.(Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

A votação que rejeitou a proposta de emenda à Constituição (PEC) do voto impresso no plenário da Câmara, na última terça-feira (10), expôs cisões em tradicionais partidos de esquerda a favor de um projeto que é obsessão de Jair Bolsonaro. No PSB e no PDT, opositores do governo, dezessete deputados se juntaram aos aliados do presidente na defesa da proposta.

Histórico aliado do PT, o PSB viu novamente sua ala “à direita” descumprir a orientação da sigla, desta vez pela rejeição ao voto impresso. Dos 31 parlamentares, 11 votaram a favor da PEC. Bolsonaro vinha ameaçando a não realização de eleições caso o voto impresso não fosse aprovado. Tanto PSB quanto PDT participaram de ato pró-democracia, após o desfile de tanques na Esplanada que foi considerada uma tentativa de pressão do presidente sobre a votação da PEC na Câmara.

Dentro da bancada, a rebeldia não surpreendeu. Trata-se de um grupo majoritariamente considerado alheio aos valores de esquerda do partido. Seis dos deputados haviam sido processados pelo PSB por votarem a favor da reforma da Previdência, em junho de 2019, contra orientação da legenda: Emidinho Madeira (MG), Jefferson Campos (SP), Liziane Bayer (RS), Rodrigo Coelho (SC), Rosana Valle (SP) e Ted Conti (ES).

Além deles, votaram “sim” pelo voto impresso os deputados Luciano Dutti (PR), Mauro Nazif (RO), Ricardo Silva (SP), Heitor Schuch (RS) e Júlio Delgado (MG). Internamente, atribui-se pelo menos duas razões diferentes para a postura insubmissa: pressão de redutos eleitorais conservadores ou um alinhamento mais ideológico ao presidente da República.

Coelho é considerado o mais “bolsonarista” do grupo. Em suas redes sociais, ele ostenta fotos ao lado de Bolsonaro, ministros e até figuras ligadas como o empresário bolsonarista Luciano Hang, dono das Lojas Havan. Em janeiro, Coelho liderou o racha na bancada para apoiar a eleição do então candidato Arthur Lira (PP-AL), nome de Bolsonaro para o pleito, contra Baleia Rossi (MDB-SP), apoiado por Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Em abril, Coelho obteve na Justiça Eleitoral o direito de deixar o PSB sem perder o mandato. Ele alegou discriminação pessoal por conta da punição advinda da votação da reforma previdenciária, o que caracterizaria devida justa causa para sua desfiliação.

Rosana Valle (SP) é também próxima ao presidente. Quando Bolsonaro viaja ao Guarujá, no litoral paulista, para passar as férias, a deputada costuma visitá-lo no Forte dos Andradas, propriedade do Exército onde ele geralmente se hospeda. Ela tem acompanhado Bolsonaro em inaugurações de obras pelo Vale do Ribeira, no Sul do estado.

Já Campos e Bayer são pastores evangélicos e costumam votar junto do governo em pautas de costumes, com posições conservadoras. Dutti e Schuch têm suas bases eleitorais em estados do Sul, em média mais simpáticos a Bolsonaro. No Rio Grande do Sul de Schuch, o PSB integra o governo de Eduardo Leite (PSDB), à direita de sua sigla.

O voto de Nazif pegou integrantes da bancada de surpresa. No dia anterior, ele havia sido cercado por um grupo de apoiadores de Bolsonaro em frente à sua residência, em Porto Velho, e constrangido aos berros a revelar como votaria a PEC. Na ocasião, ele se recusou a responder.

Delgado, por sua vez, é identificado com a esquerda do partido, mas tem demonstrado distanciamento em alguns assuntos. Ele é um dos nomes do PSB contrários a uma aliança com o PT em 2022 e defende a chamada terceira via. Delgado integrou o grupo que defendeu apoio a Lira na eleição da Câmara.

Cisões à direita

No PSL, ex-legenda de Bolsonaro que orientou voto pelo “sim” ao voto impresso, o presidente nacional, Luciano Bivar (PE), seguiu na direção contrária. Ele foi um dos cinco rebeldes, entre os 53 deputados da bancada (a maior da Câmara), a votar contra. Júnior Bozzella (SP), Dayane Pimentel (BA), Nereu Crispim (RS), Joice Hasselmann (SP) e Delegado Waldir (GO) se juntaram a Bivar.

O grupo representa a maior resistência no PSL a Bolsonaro. Rompidos com o governo federal em 2019, passaram a sofrer ataques da militância bolsonarista e viram Bolsonaro condicionar seu retorno ao partido a suas expulsões. Bozzella diz não ter ingerência na bancada, que tem Major Vitor Hugo, da tropa de choque de Bolsonaro na Câmara, como líder desde que Lira assumiu a presidência da Casa. Por isso, o grupo contra o voto impresso não teve como orientar pela rejeição à PEC.

“Quem vota favorável a um absurdo desses está compactuando com a tentativa de institucionalização de um golpe, porque é isso que o Bolsonaro tenta fazer o tempo todo, criar uma brecha para tumultuar o processo eleitoral”, afirmou Bozzella.

No PSDB, cuja direção nacional tem feito oposição a Bolsonaro, 14 deputados não seguiram a orientação do partido e se posicionaram a favor da PEC. Agora, a executiva nacional estuda bonificar aqueles que seguiram a indicação da sigla, passando mais recursos do fundo eleitoral para os 12 parlamentares que ficaram contra a proposta. Outros seis se abstiveram ou faltaram.

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