Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 21 de junho de 2023
Depois que o Titanic colidiu com um iceberg gigante e afundou nas águas geladas do Atlântico Norte, há 110 anos, na madrugada de 15 de abril de 1912, o navio foi manchete de todos os grandes jornais do mundo. Nos primeiros dias após a tragédia, informações imprecisas ou equivocadas estamparam as capas das publicações em vários idiomas. Muitas afirmavam que ninguém tinha morrido. Só com o passar do tempo ficou evidente a dimensão do desastre, hoje considerado um marco no jornalismo, devido ao padrão que se observou em coberturas daquele porte a partir de então.
A maior embarcação até então construída zarpou de Southampton, na Inglaterra, rumo a Nova York, nos Estados Unidos, com 2.240 pessoas. Era uma “maravilha da engenharia naval”. Porém, mesmo com as 46 mil toneladas de peso e os 269 metros de comprimento, o Titanic teve o seu casco partido em dois pedaços por um iceberg a cerca de 600km do Canadá, quatro dias depois de sua partida do Reino Unido. Morreram naquela tragédia 1.513 pessoas, em grande parte passageiros que viajavam na terceira classe e receberam tratamento desigual durante a operação de abandono do navio.
Aquela foi a primeira grande cobertura com uso de telégrafos sem fio, uma tecnologia ainda em sua infância na época. Quando o Titanic bateu no iceberg, a tripulação enviou sinais de socorro por código Morse (a sigla “CQD” seguida da universal “SOS”). As mensagens chegaram a outros navios, que foram na direção do transatlântico, e a estações de rádio no continente europeu. Então, agências de notícias captaram os sinais e começaram a mandar informes via telégrafo para jornais no mundo todo, antes que os dados fossem checados. Por consequência, alguns informes eram confusos ou equivocados.
Confiando em boletins preliminares sobre um grande acidente que ocorrera pouco antes da meia-noite, os jornais vespertinos de 15 de abril de 1912 noticiaram o naufrágio, mas a maioria afirmava que não havia vítimas. “Nenhuma vida foi perdida”, publicaram o “Daily Mail”, de Londres, e o “Vancouver World”, do Canadá, entre outros. Sem dados precisos, difundiu-se uma onda de otimismo turbinada pela empresa que construiu o Titanic. Executivo da White Star Line, Philip Allbright ganhou destaque ao afirmar que o navio “era capaz de resistir a qualquer dano” e “flutuaria mesmo de cabeça para baixo”.
Jornais como o “Christian Science Monitor”, de Boston, acolheram esse tom positivo: “Passageiros removidos com segurança e Titanic levado a reboque”. O devaneio era tal que a população de Nova York ainda esperava a embarcação, inteirinha, no dia 14 de abril de 1912. Os equívocos de apuração, ou a esperança exacerbada, não resistiram, porém, quando a verdadeira dimensão do desastre chegou aos dois lados do Atlântico. Então, iniciou-se outra etapa que se tornou uma constante nas coberturas desse tipo: reportagens listando os erros que levaram ao desastre e buscando culpados.
Até então, o jornalismo contava com a dinâmica de um mundo visto como uma “vila global”, no qual uma rede rudimentar de informantes espalhava as notícias de forma muito menos linear. Segundo pesquisadores, a cobertura do Titanic iniciou um ciclo do noticiário durante eventos grandes e caóticos que se repete até hoje. Primeiramente, ocorre uma corrida atrás da informação. Os periódicos relatam o que é tido como verdade, embora o caos inicial impeça, muitas vezes, a apuração correta. Procuram-se também histórias pessoais, que individualizam o desastre e o tornam mais dramático.
Quando se dá conta da real dimensão da história, chega a hora de “apontar o dedo”. No dia 21 de abril de 1912, o jornal americano “The Times-Dispatch”, de Virgínia, estampou na primeira página: “Terrível sacrifício de vidas devido à mania moderna por velocidade”. Era uma referência direta a um objetivo alardeado por executivos da White Star Line. Eles queriam que o Titanic vencesse a distância entre o Reino Unido e os EUA em tempo recorde. Para isso, traçou-se a rota de travessia pelo Norte. Embora mais curta, a trajetória reservava o perigo dos icebergs gigantes desgarrados do Polo Ártico.
Uma pesquisa da Biblioteca da Virgínia, no centenário do naufrágio, reuniu artigos antigos com séries de medidas hipotéticas que teriam evitado a tragédia. Se o Titanic tivesse navegado pelo Sul, por exemplo, não haveria icebergs no caminho. Se os marinheiros usassem binóculos, teriam identificado o iceberg a tempo de impedir o impacto. Ou, ainda, se o capitão tivesse dado antes a ordem para abandonar o navio, menos gente teria morrido. Tudo deixou claro como “o homem” fora humilhado pela mesma natureza que acreditava ter vencido ao construir a gigantesca embarcação.
Semelhanças com todas essas “fases” são observadas até hoje no jornalismo durante a cobertura de grandes acontecimentos, como os ataques terroristas ao World Trade Center, em 2001, ou a tragédia com o voo 447 da AirFrance, que caiu no Oceano Atlântico, em 2005. As informações são do jornal O Globo.
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