Sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 4 de dezembro de 2019
A habilidade de alunos em obter as informações básicas de um texto, usar a matemática no cotidiano e entender fenômenos científicos é medida pelo Pisa, exame internacional aplicado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) cujos dados mais recentes foram divulgados na terça-feira (3).
O Brasil avançou pouco, e os resultados do exame pintam um cenário de estagnação na educação para a maioria dos especialistas ouvidos pela BBC News Brasil — embora alguns sinalizem avanços modestos e pontos para otimismo.
Mas, antes de ir a fundo no que o Brasil pode aprender com o resultado do exame, vamos detalhar as competências exigidas pelo Pisa nos três campos analisados pela prova: leitura, matemática e ciências.
O Pisa 2018 foi realizado, pelo computador, por 11 mil alunos brasileiros de 15 e 16 anos — de um total de 600 mil estudantes de 79 países ou regiões em todo o mundo, amostra que representa um universo de 32 milhões de estudantes dessa idade na educação básica desses locais.
Em uma das perguntas de leitura desta edição divulgadas pela OCDE, os alunos tinham de ler textos relacionados à ilha de Rapa Nui (ou ilha de Páscoa), no oceano Pacífico, e ao trabalho de uma pesquisadora fictícia, para responder a questões básicas cujas informações estão contidas nos textos: há quanto tempo ela pesquisa Rapa Nui? O que é fato e o que é opinião nos argumentos do texto? Que descobertas sobre a ilha causam discordância entre cientistas?
A intenção é avaliar se compreenderam conceitos-chave do texto — uma das habilidades esperadas que os alunos tenham em leitura, além de conseguir obter instruções e informações dentro de textos e ser capazes de usar esses dados na sua vida cotidiana, na leitura de rótulos de embalagens, de notícias ou mesmo de contratos. E, também, de fazer uma análise crítica dessas informações.
Os resultados do Pisa mostram que 50% dos alunos brasileiros de 15 anos tinham nível básico de leitura. Apenas 2% alcançaram nível alto de proficiência nessa competência.
Para o especialista em educação Mozart Neves Ramos, diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, o Pisa está buscando avaliar competências cada vez mais exigidas na vida real e no ambiente de trabalho, e que vão além de apenas conhecer determinadas fórmulas, fatos ou conteúdos.
“O Brasil ainda está olhando muito para o conteudismo, mas o mais importante é a qualidade do que é ensinado e a forma como é ensinado, dando sentido a esse conteúdo para os alunos”, afirma à BBC News Brasil.
“Isso não significa não focar no conteúdo, mas (tirar) o excesso que não faz mais sentido no mundo de hoje”, diz ele, exemplificando as fórmulas de química que era obrigado a memorizar quando era estudante. “O que está sendo exigido no mundo do trabalho é resolução de problemas, valores, criatividade.”
A OCDE concluiu que o Brasil estagnou no Pisa na última década, embora tenha elogiado o país por ter conseguido incluir mais alunos na rede de ensino sem com isso a qualidade da sua educação.
Isso, porém, é insuficiente, opina Ramos, que também é integrante do Conselho Nacional de Educação.
“O problema é que essa qualidade está em um patamar muito baixo”, diz Ramos à BBC News Brasil. “Só 2% de nossos alunos estão nos níveis mais altos no Pisa. E ainda temos um grande contingente de alunos de 15 a 17 anos fora das escolas. Não acho que temos muito o que comemorar com um crescimento pífio. Continuamos estagnados e, em educação, estagnação é retrocesso, porque os demais países estão avançando.”
Para Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, a estagnação identificada pela OCDE na última década coincide com o período em que caiu, em sua opinião, a mobilização de entes públicos — governos, estados e municípios — por leis e medidas articuladas de investimentos na educação pública e nos professores.
“Políticas educacionais não melhoram por espasmo. É um processo contínuo e de resultados de longo prazo”, opina. “O resultado que temos hoje (no Pisa) é o que podemos ter com o que investido em educação.”
No entanto, diz Cara, “o Pisa não pode servir para o ataque à escola pública”. “Em termos de eficiência, a escola pública faz muito com o pouco que tem. Mas não dá para fazer milagre.”
Nem todos os analistas, porém, veem os dados com pessimismo. “Todos estão dizendo que estagnamos, mas não acho que isso seja verdade”, afirma Claudia Costin, diretora do Ceipe (Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais) da FGV Rio.
“Estamos longe de onde deveríamos estar, mas melhoramos nas três disciplinas (3 pontos a mais em leitura, 5 pontos a mais em matemática e 2 pontos a mais em ciências, em comparação com o Pisa anterior), então acho que é de se celebrar. Para um país atrasado em seu dever de casa, avançamos para além do que eu imaginaria.”
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