Terça-feira, 28 de abril de 2026
Por Amilcar Macedo | 28 de abril de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Como a política brasileira trocou o governo pelos stories e transformou versões em verdades prontas para compartilhar.
A política brasileira aprendeu rápido a lógica das redes: não importa o fato, importa a versão que conquista mais curtidas. Maquiavel já dizia que parecer virtuoso é tão importante quanto ser virtuoso. Em tempos de Instagram, esse conselho virou regra de ouro.
Um corte de vídeo, um meme bem editado, um boato com aparência de manchete: é assim que se fabricam heróis e vilões instantâneos. Promessas que nunca existiram viram realizações; falhas documentadas viram perseguição. O algoritmo não trabalha para a verdade, mas para aquilo que mantém a plateia engajada. O conteúdo que indigna ou conforta circula mais do que aquele que exige reflexão.
Esse ambiente não surgiu por acaso. Ele se alimenta de um fenômeno conhecido: a tendência humana de buscar apenas o que confirma aquilo em que já se acredita. As redes amplificaram isso. Hoje, cada grupo vive dentro de uma versão própria da realidade, blindada contra qualquer contestação. Quando o contraditório aparece, não é enfrentado, mas descartado.
Hannah Arendt alertou que a mentira política só prospera porque há quem aceite não pensar. Quando convicções se tornam prova e crenças substituem evidências, a razão chega atrasada. No Brasil, isso já decidiu eleições, destruiu reputações e atrasou políticas públicas, tudo com um simples “compartilhar”.
Enquanto a política se converte em performance, o moralismo vira adereço. Discursos inflamados ocupam o espaço público, enquanto negociações opacas seguem nos bastidores. A coerência deixa de ser exigência e passa a ser detalhe. O importante é sustentar a narrativa. E, nesse ponto, pouco importa o espectro ideológico, pois a lógica se repete.
O resultado é uma democracia cansada. Cada grupo fabrica seus vilões e seus santos conforme a conveniência do momento. A verdade deixa de ser um bem comum e passa a ser objeto de disputa. O debate público se transforma em uma guerra de versões, em que vencer significa convencer, não necessariamente demonstrar.
Maquiavel escreveu que “os homens julgam mais pelos olhos do que pelas mãos”. Todos veem; poucos tocam. E o que chega aos olhos hoje é editado, filtrado, patrocinado. A realidade perde espaço para a encenação.
Talvez o primeiro passo seja recuperar a coragem de desconfiar, inclusive daquilo que conforta. Democracia não se sustenta em mitos populares, mas na disposição de encarar fatos, mesmo quando são incômodos. Se continuarmos preferindo histórias a evidências, cedo ou tarde acordaremos governados por ficções perigosas. E, nesse dia, já não será mais apenas uma questão de narrativa, será de realidade.
* Amílcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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