Terça-feira, 22 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 30 de agosto de 2020
Durante mais de 50 anos, Rita Lee Jones provocou, desculpa, o auê; um verdadeiro ti ti ti cor-de-rosa choque. Ousada, inquieta e debochada, a paulistana subverteu regras, alfinetou conservadores, inspirou revoluções sociais e sexuais com suas canções, d’esse tal de Roque Enrow à balada (do louco) romântica.
A parceria com o guitarrista Roberto de Carvalho, atualmente com 67 anos de idade, foi consolidada em 1979 e 1980 com LPs intitulados “Rita Lee”, ambos recheados de hits. O primeiro disco ficou conhecido como “Mania de você”. O segundo, “Lança perfume”, ganha edição comemorativa em setembro pelos 40 anos de lançamento. De dupla a casal, Rita e Roberto frutificaram em três filhos (Beto, de 43 anos; João, de 41; e Antônio, de 39) e dois netos (Izabella, de 15, filha do primogênito do casal; e Arthur, de 3, do caçula).
A afeição por crianças, aliás, levou a cantora a se dedicar a uma outra paixão nos anos 80 e 90: a literatura infantil, incrementada pela dedicação à causa animal, bandeira que levanta desde sempre. Inspirada por um ratinho que a família adotou, Rita escreveu quatro livros protagonizados por Dr. Alex — em novembro do ano passado, a Globo Livros relançou “Dr. Alex” (1986) e “Dr. Alex na Amazônia” (1990), e nesta segunda-feira (dia 31) saem “Dr. Alex e os Reis de Angra” (1988) e “Dr. Alex e o Phantom” (novo título para “Dr. Alex e o Oráculo de Quartz”, de 1992), com novas ilustrações. No inédito “Amiga Ursa — Uma história triste, mas com final feliz”, de 2019, Vovó Ritinha apresentou aos pequeninos a real ursa Rowena, vítima de tráfico de animais.
Afastada dos palcos há oito anos, “para viver sua velhice solitária”, Rita permitiu que o branco natural lhe invadisse a cabeça, sempre criativa. Abandonou o cabelo cor de fogo, assim como os vícios de toda uma vida — com exceção do cigarro. Anualmente, vem se reconectando com os fãs por meio dos livros que lança. “Rita Lee: uma autobiografia” (2016), com relatos corajosos, surpreendeu muitos deles, virou best-seller e, tão logo a pandemia da Covid-19 permita, será produzido para o cinema. Mel Lisboa, que viveu a cantora no teatro (“Rita Lee mora ao lado”, de 2014 a 2016) e em série de TV (“Elis: viver é melhor que sonhar”, de 2019), está cotada para o papel novamente, como anunciou Roberto de Carvalho em uma live no início deste mês.
O papo a seguir é com a própria Rita Lee, que, aos 72 anos, abriu suas impressões mais atuais sobre seus feitos na vida e na carreira; sobre o mundo em que vivemos e o sobrenatural. As perguntas foram respondidas por e-mail, diretamente de seu sítio no interior de São Paulo. É onde divide a agora vida pacata com o marido e os bichinhos de estimação, num confinamento opcional e anterior à quarentena imposta a todos nós.
1-Longe dos palcos, você se reaproximou da literatura. Especialmente da infantil, com o inédito “Amiga Ursa” e os relançamentos da coleção “Dr. Alex”. Escrever para crianças lhe dá um prazer diferente?
Sim… Escrever para crianças me dá o prazer de conversar com gente do futuro, gente que vai herdar nossa Nave Mãe Terra. Passo para elas informações sobre os perigos pelos quais nosso planeta, e especialmente o Brasil, está passando em relação à destruição e o grande desrespeito à natureza.
2-Gosta de acompanhar a feitura dos livros, palpita nas ilustrações?
Esses quatro livrinhos do ratinho Alex foram escritos nos anos 80, quando quase ninguém falava de meio ambiente, defesa dos animais, mineração desenfreada e tantas outras tragédias. A Globo Livros resolveu relançá-los por achar os temas mais atuais do que nunca. O que fiz foi revisitar os textos, e ganhei ilustrações belíssimas de Guilherme Francini e Quihoma Isaac.
3-Na sua infância, você era uma leitora voraz?
Eu era viciada nas obras de Monteiro Lobato e em gibis.
4-Qual retorno dos leitores mirins mais a emocionou?
Ando recebendo vídeos, cartinhas e desenhos da criançada que leu e que adora as histórias de Alex, o ratinho ambientalista.
5-Muitas crianças também se dizem fãs das suas músicas adultas? Você compõe canções de temática infantil?
Sempre que um show nosso caía num domingo, costumávamos fazer uma matinê só para crianças… Eu adorava quando me perguntavam se eu era a Emília do “Sítio do Picapau Amarelo” (risos). No final dos anos 80, eu narrei “Pedro e o Lobo” em um show para a criançada. Até saiu em disco.
6-Vovó Rita gosta de inventar e ler historinhas para o pequeno Arthur? Foi assim também com Izabella?
Tutui tem 3 anos e gosta de ver as ilustrações, enquanto eu conto. Ziza já tem 15 anos, e empresto alguns livros meus que sei que vai curtir. Com esse vírus solto no mundo, só vejo meus netos via FaceTime.
7-Sua neta já chegou à adolescência. Você se preocupa em ser um “bom exemplo” pra ela?
Costumo dizer a ela para seguir o coração, mas levar o cérebro junto.
8-Considera-se uma avó mais careta do que foi como mãe?
Como avó, sou um misto de Dona Benta com Dercy Gonçalves: contadora de histórias, só que desbocada.
9-Você disse que deixou definitivamente de usar drogas quando Izabella nasceu. Permanece “limpa” até hoje?
Sim, estou limpa há 15 anos.
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