Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 22 de julho de 2015
O britânico David Adam, 43 anos, conseguiu escrever um livro leve e bem-humorado sobre seu medo irracional de contrair aids, uma obsessão tão forte que o levou a ser diagnosticado com TOC (transtorno obsessivo-compulsivo). Se você quer irritá-lo, porém, basta mencionar Jack Nicholson. A questão é que o ator americano interpretou um personagem com o problema – e ganhou um Oscar – no filme “Melhor É Impossível”, de 1997.
“Como ele é um bom ator, muita gente saiu do cinema achando que aquela coisa de ficar pulando de uma pedra do calçamento para outra com um sorrisinho irônico nos lábios realmente é um retrato do TOC”, explicou Adam à reportagem. “Em quase nenhum momento dá para ter uma ideia do sofrimento e da frustração trazidos pelo transtorno.”
O livro “O Homem Que Não Conseguia Parar” (editora Objetiva, preço sugerido: 39,90) é, em grande parte, um antídoto contra essa ideia de que pessoas com o problema se caracterizam por um conjunto engraçadinho e inofensivo de manias excêntricas, ou que donas de casa que não suportam ver uma manchinha no tapete “têm TOC”.
Para começo de conversa, os hábitos repetitivos ligados ao transtorno muitas vezes não têm nada a ver com higiene pessoal. Além disso, para o diagnóstico, o lado obsessivo é tão importante quanto o compulsivo. Ou seja, quem tem TOC não apenas se sente compelido a repetir determinadas ações: tais comportamentos só aparecem como forma de mitigar as obsessões – ou seja, pensamentos invasivos que angustiam ou aterrorizam a pessoa afetada.
Essas obsessões também são multiformes. Há as de natureza religiosa (preocupações com o pecado costumam encabeçar a lista), as que envolvem doenças ou coisas ainda mais chocantes, como o impulso de matar pessoas ou molestar crianças – nesse último caso, não se trata de pedofilia porque quem tem esses pensamentos não experimenta nenhum tipo de prazer com a ideia.
Adam, que hoje é editor da revista científica Nature, conta em detalhes a gênese e o desenvolvimento de seu TOC, que parece ter começado após uma noite de sexo casual sem camisinha em 1990, quando ele tinha 18 anos e estudava engenharia química na Universidade de Leeds (Inglaterra). Um amigo sugeriu que ele tinha corrido o risco de pegar o vírus da aids. “Deixa de loucura”, respondeu ele, mas a ideia simplesmente se fixou na cabeça do rapaz. Começaram então décadas de martírio, incluindo a checagem incessante de todo tipo de superfície na qual ele encostava em busca de marcas de sangue reais ou imaginárias, ligações constantes para serviços de atendimento sobre HIV do governo britânico e recorrentes exames de sangue.
Apesar desses detalhes autobiográficos, o principal foco do livro é o que os cientistas têm conseguido descobrir sobre o TOC. “Na verdade, eu só consegui escrever sobre o tema depois que melhorei”, conta Adam, que toma remédios para controlar o transtorno e também fez terapia comportamental – uma combinação dessas duas estratégias frequentemente é indicada para quem tem TOC.
Apesar de seu relativo sucesso em controlar o problema, o escritor afirma que há um abismo entre o progresso do conhecimento científico sobre o TOC (e sobre os problemas mentais de modo geral), de um lado, e a eficácia dos tratamentos, de outro. “É mais ou menos como o câncer: hoje sabemos que se trata não de uma, mas de múltiplas doenças extremamente complexas e estamos começando a entender a genética por trás do problema. Na hora de tratar os pacientes, porém, ainda estamos basicamente reduzidos a bombardear as pessoas com quimioterapia agressiva ou radiação”, compara. (Folhapress)
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