Segunda-feira, 08 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 14 de agosto de 2025
Um em cada três brasileiros sofreu um golpe na internet com prejuízo financeiro nos últimos 12 meses, o equivalente a 56 milhões de vítimas. A perda para a população com essa modalidade de crime – como golpes do Pix ou de boletos falsos, fraude contra cartão de crédito e compras não entregues – foi de R$ 111,9 bilhões.
As conclusões estão em uma nova pesquisa do Instituto Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que mede o impacto dos crimes na internet e contra o patrimônio no Brasil.
A segunda edição da pesquisa “Vitimização e Percepção da Segurança Pública no Brasil” foi lançada nesta quinta-feira (14) durante o 19º Encontro Nacional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em Manaus. De acordo com o levantamento, os crimes patrimoniais migraram das ruas para o ambiente digital, sobretudo depois da pandemia da Covid-19, em 2020.
O Instituto Datafolha entrevistou 2.007 pessoas em 130 municípios, no período de 2 a 6 de junho de 2025. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos. O intervalo considerado foi de julho de 2024 a junho deste ano.
Entre os entrevistados, 31,4% afirmaram ter sido vítimas de crimes que resultaram em vazamento de dados pessoais, um total de 53 milhões de vítimas em um ano. Outros 36,3% dos brasileiros disseram ter sofrido uma tentativa de golpe virtual, ou 61,3 milhões de pessoas, no mesmo período.
Os aparelhos celulares com acesso à internet, amplamente disseminados, são a porta de entrada para esses crimes, segundo o estudo. O Brasil tem hoje cerca de 258 milhões de smartphones em uso, o equivalente a 1,2 aparelho por habitante, de acordo com levantamento da Fundação Getúlio Vargas.
Indivíduos que tiveram o celular furtado ou roubado apresentaram, entre julho de 2024 e junho de 2025, um aumento de aproximadamente 3,7 vezes nas chances de sofrerem um crime virtual, aponta o Datafolha.
A pesquisa destaca que facções criminosas ligadas ao narcotráfico passaram a operar também os golpes virtuais para aumentar seus lucros, em especial o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Se no início as ligações eram feitas de dentro dos presídios, operações policiais recentes revelaram um novo patamar de atuação, com centrais telefônicas estruturadas para a aplicação sistemática de fraudes bancárias e golpes digitais, com o uso do Pix, WhatsApp e cartões clonados.
A inserção das facções no universo dos golpes virtuais, segundo a pesquisa, explica-se pela necessidade de movimentar e lavar o lucro oriundo do tráfico de drogas e por seu baixo risco penal — os crimes digitais são de difícil investigação para o sistema de justiça criminal.
Renato Sérgio de Lima, diretor presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ressalta que os crimes virtuais já representam uma fatia importante do faturamento das organizações criminosas.
“Antes, o PCC investia na maconha como o capital de giro da cocaína. Hoje em dia, o capital de giro é o ouro, o desmatamento e o crime virtual. Esse último alimentado pelo celular. O crime patrimonial passou a ter uma força muito grande, e o Estado está pouquíssimo aparelhado para lidar com isso”, opina Lima.
Um dos principais achados da pesquisa, segundo o diretor do Fórum, é o fato de o crime virtual não mais ocorrer de forma aleatória. As facções escolhem seus alvos de acordo com a renda, de modo a aumentar as chances de lucros.
O Datafolha mostra que 27,6% dos entrevistados classificados nas classes A/B afirmaram ter sido vítimas de contatos criminosos nos últimos 12 meses — munidos dos seus dados pessoais, os chantagistas realizaram ameaças e exigiram dinheiro. Entre os indivíduos das classes C/D/E, o percentual foi de 16,4%.
Situação parecida foi verificada no pagamento por produtos adquiridos pela internet e que não foram entregues, com prevalência de 25,1% na classe A/B e de 15,4% na classe C/D/E. O maior contraste se deu sobre a suspeita da origem ou autenticidade de mercadorias adquiridas pela internet ou redes sociais: 46,3% dos entrevistados da classe A/B e 23,3% da C/D/E.
“Quando você fala de crime patrimonial, todo mundo é vítima, pobre ou rico. Nos golpes virtuais, a gente viu que, proporcionalmente, os mais ricos e mais escolarizados são mais vítimas do que os mais pobres. O crime está escolhendo quem atacar”, diz Lima. As informações são do jornal O Globo.
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