Domingo, 05 de Julho de 2020

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Cinema Veja filmes para entender a violência racial nos Estados Unidos

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John David Washington no papel de Ron Stallworth, e Laura Harrier no de Patrice em “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee. (Foto: Reprodução)

Do clássico O Nascimento de Uma Nação, de David W. Griffith, de 1915, ao recente Infiltrado na Klan, de Spike Lee, por mais de um século o racismo esteve presente nas telas como na própria vida norte-americana. Os dois filmes são emblemáticos porque abordam a sociedade secreta criada no Sul dos Estados Unidos, após a Guerra Civil, para tentar manter o ideal da supremacia branca. Neste momento em que o Caso George Floyd provoca protestos e as grandes cidades dos EUA ardem em manifestações como no auge da luta por direitos dos anos 1960, vale viajar um pouco na lembrança para recordar filmes que fizeram história com sua abordagem de temas como racismo, linchamento. A violência racial é endêmica na ‘América’, como afirma a ONU.

O Nascimento de Uma Nação

A morte da garota branca pelo ‘negro’ – um ator branco com o rosto pintado – impressiona até hoje pela perfeição da montagem e pela utilização da paisagem natural. O paradoxo de Griffith. Grão-senhor sulista, filho de um coronel arruinado, foi decisivo para o desenvolvimento do bê-á-bá da linguagem cinematográfica. Mas The Clansman, como se chamava originalmente o filme, é um monumento ao racismo. Griffith fez outros filmes que mostraram seu lado liberal e progressista (Hearts of the World, Intolerância), mas o sulista confederado falava mais alto quando o tema era a negritude.

…E o Vento Levou

O romance de Margaret Mitchell já é uma ode ao espírito sulista. O épico produzido por David O’ Selznick mantém o tom. Ganhou todos aqueles Oscars em 1939. Mostras os carpetbaggers, escravos libertos que serviram de testas de ferro para os nortistas que compravam a troco de nada propriedades de aristocratas falidos. As personagens negras (Mammy, Prissy) são vistas com preconceito. E na estreia do filme, em Atlanta, as atrizes – nem Hattie McDaniel, que ganhou o Oscar de coadjuvante -. puderam sentar-se com o restante do elenco porque era proibido, pelas leis racistas da Georgia.

O Mundo não Perdoa

Talvez o maior filme antirracista produzido por Hollywood na fase pré-Spike Lee. Baseada no livro de William Faulkner, a história do velho negro ameaçado de execução sumária por um crime que não cometeu. O clima de festa, quando os brancos preparam o linchamento, é de arrepiar. Provada sua inocência, a comunidade branca terá de conviver com o fato de que o preconceito quase destruiu o homem bom, íntegro.

Acorrentados

Tony Curtis e Sidney Poitier fogem da cadeia ligados por uma corrente. O ódio mútuo cede espaço à compreensão e à solidariedade. Stanley Kramer era aquele diretor que os críticos amavam odiar nos anos 1950 e 1960, mas abordou grandes temas políticos. Abordou ou estragou? Há controvérsia, mas não há como negar a força dos atores.

Imitação da Vida

O clássico dos clássicos do melodrama, pelo maior autor do gênero, Douglas Sirk. A estrela Lana Turner, sua doméstica negra (Juanita Moore) e a filha dela (Susan Kohner) que se faz passar por branca. Sexo, racismo e o grandioso funeral do desfecho. O adeus à velha Hollywood. O mundo e o cinema iriam mudar nos anos 1960.

Porgy and Bess

Dorothy Dandridge e Otto Preminger, juntos e de novo. A ópera folk de Gershwin, a história de amor, sonho e ciúme. Sidney Poitier construiu uma persona de ‘bonzinho’, meio assexuado. Nunca foi tão viril como aqui. E Summertime é daqueles números que não se esquece.

Uma Voz nas Sombras

Sidney Poitier tornou-se o primeiro negro a ganhar o Oscar de melhor ator. Fez história, e foi nesse filme dirigido por Ralph Nelson. O operário desempregado (e negro) que ajuda o grupo de freiras (brancas) a construir a capela. Lilies of the Field, título original. Olhai os lírios do campo, Senhor. Ecumênico, bonito.

Conduzindo Miss Daisy

Oscars de melhor filme, atriz (Jessica Tandy) e roteiro adaptado para a história da velha dama sulista e seu motorista negro. Foi o filme para o qual Spike Lee perdeu em 1989. Bruce Beresford dirige. E Morgan Freeman já vinha se destacando (Armação Perigosa, Tempo de Glória). Nos anos e décadas seguintes, adquiriu estatura. Interpretou presidiários, sábios, presidentes, até Deus. Grande ator.

Corra!

Jordan Peele virou o arauto do novo poder negro de Hollywood. Ganhou Oscar e tudo o mais. E embora seu filme deva muito a Esposas em Conflito, de Bryan Forbes, de 1975, tem também um quê de Adivinhe Quem Vem para Jantar? A história do jovem negro que vai conhecer os pais da namorada branca e ingressa num pesadelo tem muito a ver com o racismo instalado na cabeça das pessoas e que, de Griffith a Donald Trump, com seu discurso belicoso contra as manifestações atuais nos EUA, exige reflexão – e repúdio.

Infiltrado na Klan

Spike Lee chegou lá e finalmente ganhou seu Oscar (de roteiro adaptado) graças ao apadrinhamento de Jordan Peele, que produziu o filme. John David Washington, filho de Denzel, faz policial negro que se infiltra na racista Ku Klux Klan. Como? A história é real e o relato integra elementos da estética dos blaxploitation movies dos anos 1970.

Pantera Negra

Ryan Coogler e o super-herói negro dos comics, interpretado por Chadwick Boseman. Sucesso de público e crítica, um filme rico em colorido e som, com o pé na cultura africana. Venceu, merecidamente, os Oscars de trilha, figurinos e direção de arte em 2019, no mesmo ano de Infiltrado na Klan.

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