Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 19 de maio de 2021
No dia 12 de maio, uma mensagem apareceu em um novo canal do WhatsApp chamado “Morte aos Árabes”. A mensagem convocava israelenses a se juntarem a uma grande briga na rua contra cidadãos árabes de Israel. Em poucas horas, dezenas de outros novos grupos de WhatsApp surgiram com variações do mesmo nome e mensagem. Eles logo determinaram que o início do confronto seria às 18h em Bat Yam, cidade costeira de Israel.
“Juntos, nós organizamos e, juntos, nós agimos”, dizia uma mensagem em um dos grupos. “Digam a seus amigos para entrarem no grupo porque aqui sabemos como defender a honra judaica.”
Naquela noite, cenas ao vivo de israelenses vestidos de preto quebrando janelas de carros e andando pelas ruas de Bat Yam foram ao ar. A multidão puxou um homem supostamente árabe de dentro de seu carro e o espancou até deixá-lo inconsciente. O rapaz foi hospitalizado em estado grave.
O episódio foi um entre dezenas em Israel, que as autoridades vincularam ao aumento das atividades de extremistas judeus no WhatsApp, o serviço de mensagens criptografadas do Facebook. Desde que a violência entre israelenses e palestinos aumentou na semana passada, ao menos 100 novos grupos de WhatsApp foram criados com o propósito de expressar violência contra os palestinos, de acordo com análises do The New York Times e do FakeReporter, grupo de vigilância israelense que estuda desinformação.
Os grupos, com nomes como “A Guarda Judaica” ou “As Tropas Vingativas”, adicionaram centenas de membros por dia durante a semana passada, segundo a análise do Times. Os canais de transmissão, que são em hebraico, também apareceram em listas de e-mail e fóruns on-line utilizados por membros da extrema direita em Israel.
Apesar de as mídias sociais e os aplicativos de mensagem terem sido usados no passado para espalhar ódio e incitar violência, esses grupos de WhatsApp foram além, mostraram os pesquisadores. Isso porque os grupos estão, explicitamente, planejando e executando atos violentos contra os cidadãos palestinos de Israel, que representam cerca de 20% da população e vivem lado a lado de vizinhos judeus.
Isso é muito mais específico do que os anteriores ataques em massa alimentados pelo WhatsApp na Índia, onde os apelos à violência eram vagos e geralmente não direcionados a indivíduos ou empresas, disseram os pesquisadores. Até mesmo os grupos do movimento “Stop the Steal” (parem o roubo, que alegava fraude nas eleições) nos EUA, que organizaram as manifestações do dia 6 de janeiro em Washington, não direcionaram abertamente ataques usando as mídias sociais ou aplicativos de mensagem.
A proliferação desses grupos de WhatsApp deixou em alerta os serviços de segurança de Israel e pesquisadores de desinformação. Nos canais, ataques foram cuidadosamente documentados, com membros frequentemente se gabando por terem participado da violência, de acordo com a análise feita pelo NYT. Alguns falavam que estavam se vingando por causa dos foguetes disparados contra Israel por combatentes da Faixa de Gaza, enquanto outros reclamavam de outras questões. Muitos pediam nomes de empresas de árabes para serem atacadas.
“São pessoas que usam os próprios nomes e números de telefone para, abertamente, incitar a violência, e tendo uma ferramenta como o WhatsApp para se organizarem em grupos”, explica o diretor do FakeReporter, Achiya Schatz.
Ele disse que sua organização denunciou diversos novos grupos de WhatsApp à polícia israelense, que inicialmente não tomou nenhuma atitude, “mas agora está começando a agir e tenta prevenir a violência”.
A polícia israelense não respondeu às tentativas de contato, mas funcionários de segurança de Israel disseram que as autoridades policiais começaram a monitorar os grupos de WhatsApp depois de terem sido alertadas pelo FakeReporter. A polícia, segundo Schatz, acredita que os ataques dos judeus extremistas foram incentivados e organizados pelos grupos de WhatsApp.
Um funcionário, que falou sob a condição de anonimato, acrescentou que a polícia não viu grupos semelhantes de WhatsApp se formando entre os árabes-israelenses. Movimentos islâmicos, incluindo o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, há muito tempo organizam e recrutam seguidores nas redes sociais, mas não planejam ataques por medo de serem descobertos. As informações são do jornal The New York Times.
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