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Com 70 anos de teatro, Fernanda Montenegro lança autobiografia

A obra "Prólogo, Ato, Epílogo" é pontuada por testemunhos da atriz de teatro, cinema, TV e rádio. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Fernanda Montenegro faz 90 anos no mês que vem e, diz ela, soma 70 de teatro. Mas na verdade subiu ao palco aos oito, quando ainda morava no bairro do Campinho, subúrbio do Rio de Janeiro.

Na pequena igreja de São Sebastião havia “um teatrinho”, onde ensaiou e apresentou, ao lado de um primo, um dramalhão então muito representado em “circo pavilhão” ou circo-teatro, “Os Dois Sargentos”.

Escreve que guardou “para sempre na lembrança a sensação de levitar”. Falando à Folha, detalhou que “era uma igrejinha pobrinha, que a família toda frequentava” e onde ela fez a primeira comunhão.

“Na hora H é que a gente viu aquela luz pela primeira vez, uma luz cor-de-rosa”, conta. A iluminação separou a plateia do palco “e, como lá era escuro e aqui era iluminado, eu senti que estava acima do chão”.

A autobiografia “Prólogo, Ato, Epílogo” é pontuada por testemunhos assim, da primeira atriz do teatro brasileiro, também do cinema, da TV e, antes, do rádio. Relata, por exemplo, que ao buscar uma vaga no Radioteatro da Mocidade, aos 15, “já intuía que precisava de uma profissão que deveria ser votiva”, como um voto, uma entrega.

Foi na metade dos quase dez anos que passou no rádio, que mudou de nome, da radioatriz Arlette Pinheiro para Fernanda Montenegro. Fernanda “porque tinha um clima de romance do século 19”. E Montenegro foi tirado de “um médico de subúrbio que atendeu a família anos, curando todos, segundo minha avó, milagrosamente”.

Diz que a filha, a atriz Fernanda Torres, que amamentou “nas coxias”, ganhou o nome porque era preciso uma “Fernanda verdadeira” na casa, como justificou o pai, o também ator Fernando Torres – companheiro de Montenegro do rádio até sua morte, em 2008.

A atriz conta que foi a avó Maria Francisca Pinna, “a grande companheira da minha infância”, que a estimulou para o teatro, indiretamente. “Eu tinha um faz de conta que era o mundo das histórias de vovó.Todo dia. A gente só se aquietava quando ela sentava e contava. Também muito cinema. Tudo era uma fuga daquela realidade tão simplória.”

Sobre o ofício, mostra devoção pelos atores e atrizes que viu nas revistas da praça Tiradentes, como Grande Otelo e Mesquitinha, e nos teatros da Cinelândia, como Dulcina de Moraes e Bibi Ferreira. Também pelas primeiras companhias amadoras, como o Teatro de Estudante, a cujo “Hamlet” de 1948, com Sérgio Cardoso, ela assistiu 18 vezes. “Quem viu, viu: arte do ator não se fixa. Nada fica”, escreve.

A certa altura, comenta sobre si mesma: “Troquei de pele durante 70 anos. Nunca tive meu próprio rosto nem postura”. E cita um verso de Cecília Meirelles: “Em que espelho ficou perdida a minha face?”. Seus maiores mestres foram a atriz francesa Henriette Morineau, com quem aprendeu a “disciplina absoluta”, e o diretor italiano Gianni Ratto, que a introduziu à construção das personagens como uma “busca infindável”, de Sísifo.

O livro narra passagens como o protagonismo alcançado a partir de “A Moratória”, dirigida por Ratto, peça que “mudou o curso da minha vida”, e os primeiros aplausos em cena aberta com “O Mambembe”, também direção de Ratto.

Não faltam momentos difíceis, inclusive no teatro, como ouvir de um dos líderes do Arena que ela era bem-vinda na companhia, mas os seus colegas homossexuais, não. Ou os anos de dívidas acumuladas junto ao Banco Nacional para produzir suas peças.

O livro termina com o registro satisfeito de que, aos quase 90, “ainda dou conta do meu ofício”, em “Nelson Rodrigues por Ele Mesmo”, solo que traz a São Paulo no ano que vem. “Tudo vai se harmonizando para a despedida inevitável”, disse ela, no último parágrafo. “Mas, acordo e canto.”