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Houve tempos em que a polícia do Rio prendia quem gostava de carnaval

Desfile de pierrôs em São Paulo, em 1917. (Foto: Reprodução/Livro Meu Carnaval Brasil)

Muito antes das escolas de samba e dos blocos de rua, o carnaval carioca era o momento em que jovens brancos e escravos iam às ruas jogar água e bolas de cera nos pedestres, uma brincadeira conhecida como entrudo. Intelectuais dos primeiros anos da República organizavam bailes de máscaras satirizando a elite política da época.

No início do século passado, negros improvisavam rodas de capoeira. Todas as manifestações eram reprimidas pela polícia. A festa já foi cancelada, adiada e censurada. Ainda assim, sobreviveu. Conforme o jornal O Globo, essa resistência tem sido acompanhada de perto, e de diversas formas por historiadores, sociólogos e antropólogos, que consideram a folia o reflexo de uma sociedade dividida, tanto na distribuição de renda quanto na ocupação da cidade.

O olhar sobre o carnaval mudou de acordo com as lentes de governantes e intelectuais. Os líderes do País elegeram os negros como um perigo para a sociedade no fim do século XIX e no início do XX. Suas manifestações culturais já haviam sido consideradas uma ameaça aos homens livres do Império, e depois eram tidas como um obstáculo à construção dos valores patrióticos da República.

Segundo o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti, uma epidemia de febre amarela fez o governo federal transferir o carnaval carioca de fevereiro para junho em 1892. Foi um fracasso e, com a pressão da imprensa, a festa voltou à data original no ano seguinte. Em 1894, conflitos políticos riscaram a folia de Momo do calendário. No mesmo período, as autoridades tentaram banir as máscaras nos bailes, temendo que monarquistas se aproveitassem do anonimato para praticar atentados contra figurões republicanos.

Além do debate histórico e étnico, o reinado de Momo seduz acadêmicos interessados em estudar as manifestações políticas. Os sambas das agremiações eram lidos minuciosamente por Getúlio Vargas e pelos presidentes do regime militar, preocupados que os carros alegóricos levassem contestações políticas Rio afora. As agremiações a presentaram ao público figuras que eram até então pouco conhecidas, como Zumbi dos Palmares, tema do enredo do Salgueiro em 1960.

Os desfiles transformaram conceitos culturais e de sexualidade. Chocaram moralistas levando o topless ao centro das atenções, e deram espaço para movimentos de vanguarda, como o tropicalismo.

Veja visões de pesquisadores.

Zé Pereiras

Maria Clementina Pereira Cunha – Unicamp e autora do livro Ecos da Folia: O carnaval é uma oportunidade para analisarmos a abertura vertical da sociedade — a diferença entre escravos e senhores, governantes e governados, ricos e pobres —, mas também os contrastes horizontais, dentro da mesma classe social. Há muitas maneiras de aproveitar a festa, mesmo na camada mais miserável.

No século XIX, por exemplo, os “zé pereiras” eram pessoas que saíam anarquicamente pela cidade com bumbos, sanfonas, violas, qualquer instrumento musical que tivessem em casa. Também víamos rituais de violência, como os cordões de pancadaria.

Em uma tentativa de refinar a folia, os ricos fundaram sociedades carnavalescas e introduziram carros alegóricos acompanhados de bandas marciais, que passavam pelas ruas entoando músicas sobre liberdade e civilização, ideários que deveriam ser impostos à sociedade. Mas intelectuais e artistas também organizavam carros com críticas às autoridades.

O final do século XIX foi o período em que o carnaval foi tratado com maior violência pelo Estado. Depois da abolição da escravidão, a elite perdeu o controle sobre os negros, e a festa era o momento em que eles conseguiam se manifestar. Uma das exigências dos políticos à época foi o registro oficial de grupos carnavalescos.

Getúlio Vargas foi o primeiro presidente a perceber o carnaval como um símbolo carioca e nacional. Decidiu, então, financiar as escolas de samba e impor temas que exaltavam a brasilidade.

Grande repressão

Nireu Cavalcanti -Arquiteto e pesquisador da História do Rio de Janeiro: O carnaval enfrentou uma grande repressão porque não se encaixava na organização tradicional da sociedade.

O poder público teve dificuldades para controlar a festa. Em 1849 foi instituído um decreto para acabar com o entrudo, porque acreditava-se que os escravos estavam infiltrados na brincadeira sujando as roupas de pessoas livres.

A festa também foi vítima de instabilidades políticas. Foi suspensa em um ano durante o governo do presidente Floriano Peixoto (1891-1894), quando vigorou estado de sítio por conta de um racha entre autoridades republicanas.

Os jornais foram os responsáveis por moldar o carnaval, na medida em que distribuíam prêmios como o de clubes com melhor estandarte. Todos recebiam críticas de conservadores, que bradavam contra as prostitutas que desfilavam nos carros alegóricos. A imprensa católica indignava-se com a imoralidade das “moças de vida fácil” que usavam “roupas sumárias”.

 

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