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Veja como uma princesa da Disney ajudou uma menina com albinismo

Rainha de Arendelle se tornou um exemplo positivo para Sadie, uma menina que nasceu com a condição e que tem na mãe, a folclorista Emily Urquhart, uma defensora dos albinos em todo o mundo. (Crédito: Reprodução)

A personagem Elsa, do desenho animado Frozen, é reconhecida em todo o mundo, mas para uma família ela é mais do que apenas um personagem da Disney. A jornalista e folclorista canadense Emily Urquhart conta como a Rainha de Arendelle se tornou um exemplo positivo para sua filha, que tem albinismo: “É o primeiro dia de escola da minha filha e eu deixo Sadie na fila com seus colegas do jardim de infância. Apesar das muitas camadas de roupa que ela está usando por causa do frio, mechas de cabelos brancos aparecem embaixo de sua touca e em seu pescoço, perto do cachecol. O menininho atrás dela na fila se aproxima para ver melhor e berra: ‘Ei, seu cabelo é igual ao da Elsa!'”.

Sadie é uma menina normal, que convive con naturalidade com sua imagem "diferente". (Crédito: Reprodução)
Sadie é uma menina normal, que convive con naturalidade com sua imagem “diferente”. (Crédito: Reprodução)

Princesa da ficção estimula autoestima. 

Para os não iniciados, Elsa é a popular protagonista do grande sucesso de animação Frozen. Como princesa, ela consegue fazer castelos de gelo com os dedos e, quando seus poderes saem de controle, ela se isola para proteger sua corte. Para Sadie, a comparação é positiva. “A cultura das princesas me deixa receosa por seus valores misóginos antiquados, mas eu acho boa para Elsa, que apareceu pela primeira vez em 2013, quando Sadie tinha três anos. Não por ela ser uma personagem principal mulher, forte, sem uma narrativa guiada por um príncipe, mas por ela ter cabelos brancos como os da minha filha”, confessa Emily.

“A diferença é que Elsa tem cabelo branco como manifestação de seus poderes e Sadie tem albinismo – o que significa que ela tem pouco ou nenhum pigmento em seu cabelo, pele e olhos e usa óculos para corrigir o que é possível de sua visão baixa. O menininho que reparou no cabelo da minha filha foi só mais um. Isso começou no sala de parto, quando metade do hospital veio ver ‘o bebê de cabelo branco’. Só o zelador sugeriu que ela poderia ter um problema genético”, relembra.

Folclorista canadense Emily Urquhart denuncia a discriminação dos albinos em todo o mundo. (Crédito: Reprodução)
Folclorista canadense Emily Urquhart denuncia a discriminação dos albinos em todo o mundo. (Crédito: Reprodução)

Albinos já foram vistos como vilões. 

Tradicionalmente, porém, Hollywood não foi sempre tão gentil. Personagens que parecem com pessoas albinas geralmente são “vilões” – uma espécie de pessoa má estranha e assustadora. Filmes como Matrix Reloaded, com Keanu Reeves, e séries de TV como Doctor Who usaram clichês como esses de “albinos maus”. Sadie nasceu quando sua mãe estava fazendo doutorado em folclore na Memorial University, em Newfoundland (Canadá”. “Acabei focando para pesquisar em albinismo e outros casos de diferença humana no folclore. Descobri que entre os indígenas kunas, no Panamá, as pessoas albinas eram reverenciadas, que tinham a tarefa de defender a lua de um dragão faminto e dando a eles o apelido poético de ‘criança da lua’, mas outros relatos, entretanto, sugeriam que, longe de reverenciados, eles eram condenados ao ostracismo e não podiam se casar com outras pessoas”, descreve Emily.

“Durante os anos de 1950, na Inglaterra, um artigo no British Medical Journal espalhou o boato de que Noé, da Bíblia, teria sido o primeiro caso registrado de albinismo. Uma versão do nascimento de Noé foi descoberto em pergaminhos em uma caverna a leste de Jerusalém e levou o oftalmologista inglês Arnold Sorsby a traçar paralelos entre Noé e um bebê com albinismo. O documento descrevia a criança como tendo a carne branca como neve, cabelo tão branco quanto lã e olhos que iluminavam o cômodo. O artigo de Sorsby foi feito como piada, mas seu impacto foi duradouro. O grupo americano de albinismo que eu faço parte se chama National Organization of Albinism and Hypopigmentation, conhecido pela sigla NOAH, Noé em inglês”, testemunha a folclorista.

Hoje, albinos têm a vida ameaçada. 

“Na América do Norte há lendas contemporâneas sobre colônias de pessoas com albinismo que vivem às margens da sociedade. Esses mitos podem ser cruéis psicologicamente, mas há crenças que afetam albinos na Tanzânia e no norte do Leste da África de forma mais concreta. Em algumas áreas, partes do corpo deles são usadas por curandeiros em poções que trariam boa sorte na saúde, amor e negócios. Eu viajei para a Tanzânia para aprender mais sobre estes crimes hediondos. A pesquisa partiu meu coração, mas as pessoas que eu conheci eram sobreviventes, não vítimas. Eram ativistas, jornalistas e atletas e todos estavam enfrentando esta prática e trabalhando incansavelmente pela mudança.”

“A crença de que pessoas com albinismo são mágicas, tanto de forma positiva ou negativa, sugere que eles são diferentes do resto da população. Posso garantir que eles não são diferentes. Minha filha é uma menina de cinco anos,  prefere rosa, não come couve-de-bruxelas e sabe o que fazer quando acha que o irmãozinho bebê dela está ganhando muita atenção. Ela sabe que tem albinismo e sabe como se virar quando não consegue ver um livro de ilustrações ou o quadro negro da escola. Ela não sabe das crenças culturais que cercam sua condição genética. Mas quando ela se deparar com essas histórias eu estarei preparadas para dissipá-las e explicá-las.
Por ora, porém, vamos ficar com Frozen”, completa a mãe.

O que é o albinismo?

Conjunto de condições geneticamente herdadas que resultam em falta de pigmento na pele, cabelo e olhos. Pode resultar em pele muito branca, que queima fácil exposta ao sol, cabelo praticamente branco, miopia grave e sensibilidade à luz.