Quinta-feira, 23 de abril de 2026
Por Vera Armando | 11 de fevereiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Parece difícil de acreditar, mas só em 2002 o Brasil retirou do Código Civil uma das regras mais humilhantes já impostas às mulheres que permitia ao marido anular o casamento se descobrisse que a esposa não era virgem.
Na prática, a mulher era tratada como um produto cuja “qualidade” precisava ser garantida. Caso contrário, poderia ser descartada. Popularmente, o ato ficou conhecido como “devolver a noiva”. A expressão, por si só, revela o tamanho do absurdo: não se devolve uma pessoa, apenas um objeto.
Mas a mudança na lei não apagou automaticamente séculos de mentalidade construída sobre o controle do corpo e da liberdade feminina.
O feminicídio é herdeiro direto dessa cultura machista. Muitos homens agem como se essa lei ainda valesse, tanto que, em 2026, as mulheres continuam sendo tratadas como produto.
Ele carrega a mesma raiz simbólica: a ideia de que a mulher pertence ao homem. Quando ela decide partir, reconstruir a vida ou simplesmente dizer não, alguns reagem como se estivessem diante da perda de algo que lhes era devido.
O mais alarmante é perceber que em pleno século XXI há quem relativize essas mortes. Questiona-se a conduta da vítima, analisa-se sua vida pessoal e, muitas vezes, procura-se uma justificativa para o injustificável. Essa inversão moral precisa ser enfrentada com coragem.
O feminicídio é um padrão cruel que revela o quanto ainda estamos presos a uma cultura machista que, por séculos, ensinou que a mulher deveria ocupar um lugar de submissão. Os crimes contra mulheres acontecem quando o agressor não aceita o fim de um relacionamento, quando não tolera a autonomia feminina ou quando acredita ter o direito de controlar cada passo da mulher. É o crime de quem confunde amor com domínio e parceria com propriedade.
Em muitos lares, essa mentalidade ainda se manifesta na forma mais brutal possível: a violência que nasce do sentimento de posse.
Combater o feminicídio exige uma rede de proteção eficiente, aplicação rigorosa da lei e, principalmente, uma transformação cultural profunda. É urgente educar para o respeito, romper com padrões que romantizam o controle e deixar claro que amor não combina com violência.
O século mudou. As leis avançaram. Mas o verdadeiro progresso só será alcançado quando nenhuma mulher for vista como objeto e quando todo homem compreender que ninguém possui a vida de outra pessoa.

* Vera Armando – jornalista e vereadora de Porto Alegre
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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