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Colunistas Da biblioteca modesta ao dólar digital: o mundo mudou mais rápido do que os economistas imaginavam

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O que antes exigia anos de leitura, viagens, pesquisas em bibliotecas e acesso difícil à informação, hoje pode ser explicado quase de forma líquida. (Foto: GAI Media)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

No final da década de 1980, quando eu avançava nos estudos de Economia na antiga Fundação Educacional da Região dos Vinhedos — hoje incorporada pela Universidade de Caxias do Sul e conhecida como CARVI – Campus Regional da Região dos Vinhedos — estudar era quase um exercício de resistência física e intelectual.

A realidade era completamente diferente da atual. Eu precisava conciliar trabalho, vida profissional e faculdade. As aulas começavam às 19h e seguiam até às 23h. Depois de um dia inteiro de trabalho, manter a mente ativa diante de teorias econômicas, tabelas, fórmulas e debates exigia disciplina. Muitas vezes, mais persistência do que talento.

A assimetria de informação daquela época era gigantesca. Hoje um estudante carrega no bolso acesso instantâneo a bibliotecas globais, cursos online, vídeos, simuladores e inteligência artificial. Naquele tempo, a biblioteca era modesta, os livros eram escassos e a informação demorava para chegar ao interior do Brasil. Quando um professor mencionava um autor estrangeiro ou uma nova teoria econômica, frequentemente levávamos semanas até encontrar alguma referência mais aprofundada.

Meu espírito curioso sempre me empurrava para a literatura econômica. Mas confesso: nunca fui um leitor disciplinado no sentido clássico. Raramente terminava os livros que começava. Minha leitura sempre foi mais intuitiva do que linear. Eu absorvia conceitos, conectava ideias, fazia relações mentais e seguia adiante. Não possuo leitura fotográfica, tampouco uma memória absoluta. Minha memória funciona de maneira seletiva: ela retém aquilo que provoca reflexão, emoção ou conexão prática com a realidade.

Foi justamente em uma disciplina de Economia Internacional que tive meu primeiro contato com o Acordo de Bretton Woods. Na época, confesso que entendi pouco da dimensão histórica daquilo. Somente anos depois consegui compreender a profundidade daquela arquitetura financeira criada em 1944, ao final da Segunda Guerra Mundial.

Bretton Woods foi muito mais do que um simples tratado econômico. Foi o desenho estrutural do capitalismo moderno. Na pequena cidade americana de Bretton Woods, representantes de dezenas de países decidiram criar um sistema monetário internacional baseado no dólar americano, que por sua vez seria lastreado em ouro. Dali nasceram instituições como o FMI e o Banco Mundial, e consolidou-se a hegemonia financeira dos Estados Unidos no pós-guerra.

Naquele período em que eu estudava Economia, o mundo também estava mudando dramaticamente. A União Soviética caminhava para sua dissolução, o Muro de Berlim havia caído e a Europa iniciava um processo intenso de integração econômica que mais tarde desembocaria na União Europeia e no euro. A globalização começava a ganhar musculatura.

E a tecnologia? Bem, a grande novidade era o fax. Para os mais jovens, talvez seja difícil imaginar o impacto daquela máquina. Pela primeira vez, documentos e imagens em preto e branco podiam ser transmitidos quase instantaneamente através de linhas telefônicas. Parecia revolucionário. Hoje, qualquer aplicativo de mensagens faz isso em milésimos de segundo, com vídeo em alta definição.

Demorei muitos anos para entender que a economia mundial não é apenas feita de números, mas de poder, influência geopolítica, confiança e velocidade da informação.

Agora, décadas depois, vejo novamente o mundo entrando em uma possível reorganização financeira global. O surgimento do banco dos BRICS, atualmente presidido pela Dilma Rousseff, mostra que economias emergentes buscam construir alternativas ao eixo financeiro tradicional. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos respondem tentando preservar sua centralidade monetária com novos instrumentos, como o GENIUS Act, legislação que regula stablecoins lastreadas em títulos do Tesouro americano.

Talvez estejamos assistindo a uma nova versão de Bretton Woods – não mais construída em torno do ouro, mas da digitalização financeira, dos algoritmos, das stablecoins, da inteligência artificial e da disputa silenciosa pelo controle da infraestrutura monetária global.

A diferença é que hoje tudo acontece em velocidade exponencial.

O que antes exigia anos de leitura, viagens, pesquisas em bibliotecas e acesso difícil à informação, hoje pode ser explicado quase de forma líquida, instantânea, acessível. Uma inteligência artificial consegue resumir em segundos conceitos que eu levei décadas para compreender plenamente.
Mas existe um detalhe importante: informação rápida não significa necessariamente compreensão profunda.

Talvez o grande desafio da nova ordem mundial não seja apenas econômico ou tecnológico. Talvez seja humano. Em um mundo onde tudo circula em tempo real, compreender continuará sendo muito mais valioso do que simplesmente receber informação.

* Renato Zimmermann – desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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Um grande centro de convenções, por favor!
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