Domingo, 07 de junho de 2026
Por Ali Klemt | 7 de junho de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
O Brasil conheceu Henry Borel da pior forma possível: através da sua morte.
O menino de apenas quatro anos não morreu. Foi morto. E foi morto dentro do lugar onde deveria estar mais seguro do que em qualquer outro lugar do mundo: sua própria casa. Aquele espaço que deveria representar proteção, acolhimento e segurança.
Já era horrível. Mas ficou pior.
Nesta semana, ao ler a decisão que concedeu perdão judicial à sua mãe, Monique Medeiros, confesso que chorei. Eu chorei mesmo.
Existe algo especialmente doloroso quando uma criança é ferida justamente por aqueles que tinham o dever de protegê-la. Talvez por isso, a cada linha da fundamentação da sentença, eu procurasse por Henry. Procurasse o menino. Procurasse a vítima. E, em muitos momentos, tive a sensação de que ele havia desaparecido da história.
No lugar dele encontrei uma mulher descrita como vítima de uma reação social excessiva, de uma cobrança incompatível com os tempos modernos, de uma expectativa injusta em relação ao papel da mãe e da mulher. Li sobre misoginia. Li sobre pressão social. Li sobre os impactos emocionais sofridos pela ré. E, enquanto lia tudo isso, uma pergunta não saía da minha cabeça: em que momento passamos a confundir a expectativa de que uma mãe proteja seu filho com a exigência de uma mãe perfeita?
Ninguém exigia perfeição.
Ninguém.
Ninguém esperava uma santa, uma mártir ou uma heroína. O que a sociedade esperava — e continua esperando — é algo infinitamente mais simples: que uma mãe proteja o próprio filho.
É simples: entre a mãe perfeita e a mãe que protege existe um abismo. E ninguém estava pedindo perfeição (estou sendo repetitiva propositalmente).
Sim, eu sei. Vivemos uma época em que tudo precisa ser relativizado. Tudo precisa ser explicado. Tudo precisa ser reinterpretado à luz de alguma teoria, de alguma estrutura social ou de alguma narrativa contemporânea. Mas há certas verdades tão básicas que deveriam permanecer intactas. Uma delas é que crianças precisam ser protegidas. Outra é que a responsabilidade primária por essa proteção recai justamente sobre os adultos que as colocaram no mundo ou assumiram o compromisso de cuidar delas.
Aliás, não sou eu quem está dizendo isso. O artigo 227 da Constituição Federal estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à dignidade e à proteção. O Estatuto da Criança e do Adolescente vai na mesma direção. Portanto, não estamos falando de uma expectativa patriarcal, de um resquício conservador ou de uma cobrança incompatível com os tempos modernos. Estamos falando da Constituição da República.
Mas tem mais. Há, ainda, outro aspecto dessa história que me assombra profundamente. Monique e Jairinho estavam juntos havia poucos meses quando Henry foi morto. Poucos meses. Henry tinha quatro anos. Quatro anos.
Não estamos falando de um relacionamento de décadas. Não estamos falando do pai biológico da criança. Não estamos falando de alguém que acompanhou os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras febres e os primeiros medos daquele menino.
Estamos falando de um homem que havia chegado recentemente à vida daquela família.
Esse detalhe torna tudo ainda mais doloroso e escancara uma realidade que precisamos encarar: a irresponsabilidade de tantas mães que põem dentro da sua casa um homem que mal conhecem. A consequência disso? Risco iminente às crianças.
Por isso, não consigo evitar uma pergunta: em que momento um relacionamento recém-iniciado passou a ter mais peso do que uma criança que dependia integralmente da própria mãe?
Não é uma pergunta jurídica. É uma pergunta moral.
Toda maternidade estabelece uma hierarquia que deveria ser inegociável. O filho vem primeiro. Antes do namorado. Antes da paixão. Antes da companhia. Antes de qualquer projeto pessoal.
O adulto escolhe seus relacionamentos, mas a criança não escolhe seus responsáveis.
E, justamente por isso, esse caso feriu tanto o Brasil. Porque, no fundo, todos nós entendemos que um filho pode sobreviver sem um namorado. Mas não deveria precisar sobreviver sem a proteção da própria mãe.
Décadas de estudos em psicologia do desenvolvimento, especialmente os trabalhos de John Bowlby e Mary Ainsworth sobre a teoria do apego, demonstram que a figura do cuidador principal exerce influência decisiva sobre a segurança emocional da criança. Em resumo: para uma criança, proteção não é um bônus. Não é um luxo. Não é um diferencial. É uma necessidade básica de sobrevivência física e emocional.
Talvez seja justamente por isso que casos como o de Henry nos provoquem uma dor tão profunda. Não se trata apenas da violência em si. Trata-se da quebra da confiança mais elementar que existe na experiência humana. Uma criança acredita que sua mãe irá protegê-la. Ela não acredita nisso porque alguém lhe ensinou. Ela acredita porque depende disso para viver.
E é aqui, exatamente aqui, que me recordo de uma frase célebre da ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça: “Amar é faculdade. Cuidar é dever.”
Que frase extraordinária.
Ela simplesmente resume tudo: ninguém pode obrigar alguém a sentir amor.
Mas cuidar é diferente.
Cuidar é responsabilidade.
Cuidar é obrigação.
Cuidar é dever.
É inaceitável, portanto, a tentativa de transformar a indignação social em prova de preconceito. A sociedade não se revoltou porque esperava uma mãe perfeita. A sociedade se revoltou porque ainda existe dentro de nós um senso moral que distingue a criança vulnerável do adulto responsável por protegê-la. E graças a Deus que esse senso ainda existe.
Lembrei, inclusive, de outro caso que me marcou profundamente: o do menino levado para a Argentina pela própria mãe durante uma disputa de guarda que foi encontrado morto poucos dias depois. Casos diferentes, circunstâncias diferentes, desfechos jurídicos diferentes. Mas ambos nos obrigam a encarar uma verdade desconfortável que nossa época parece ter medo de admitir: nem toda maternidade é protetiva. Nem toda mãe cumpre o dever que a sociedade, a lei e a própria natureza lhe confiaram.
Então, vamos encarar a realidade: nos últimos anos, passamos a desenvolver uma compaixão quase infinita pelos adultos. Sempre existe uma explicação. Sempre existe um contexto. Sempre existe uma justificativa.
Mas, curiosamente, essa mesma compaixão nem sempre é direcionada à criança!
A juíza falou em misoginia.
Eu pensei em Henry.
A juíza falou em pressão social.
Eu pensei em Henry.
A juíza falou em expectativas excessivas sobre a maternidade.
Eu pensei em Henry.
Enquanto nós discutimos teorias, estruturas, narrativas e “a rebimboca da parafuseta”, Henry continua sendo a única pessoa dessa história que não teve defesa, não teve voz, não teve escolha e não teve futuro.
Que fique claro: o Brasil jamais exigiu uma mãe perfeita. Exigiu, porém, a proteção básica que um adulto deve a uma criança. Que dirá a própria mãe.
O caso Henry e o caso do menino levado para a Argentina não são iguais. Mas ambos apontam para uma verdade que parece cada vez mais difícil de dizer em voz alta: nem toda mãe protege. E é exatamente por isso que nós, a sociedade, não pode abrir mão de cobrar essa proteção. Em defesa das nossas crianças.
Quando uma sociedade começa a tratar como exagero a expectativa de que uma mãe proteja o próprio filho, não estamos diante de uma crise jurídica: estamos diante de uma crise moral.
Ninguém exigia perfeição. O mínimo era o dever de proteção. Nem isso foi feito e, por isso, não existe perdão.
Ali Klemt
@ali.klemt
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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