Terça-feira, 26 de Maio de 2020

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Edson Bündchen A desglobalização e o novo tribalismo

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(Foto: Reprodução)

A atual pandemia da Covid-19 que varre o planeta e coloca de joelhos a economia mundial, vai redesenhar o modo como vivemos em sociedade, produzimos e planejamos o nosso futuro. Esse novo comportamento terá reflexos também na geopolítica e no questionamento à maneira como as cadeias produtivas foram estruturadas nas últimas décadas, gerando dependências que estão se mostrando críticas neste momento. A China, por exemplo, detém mais de 90% da produção de respiradores, impondo uma inédita e predadora corrida por esses equipamentos. A lógica que moveu o mundo para a globalização, especialmente a busca por maior eficiência econômica, começará a ser questionada com a inclusão de variáveis de natureza social no cálculo das decisões.

As transformações serão de tal magnitude que implicarão na reconfiguração de algumas premissas antes intocáveis do sistema capitalista, destacando-se duas de caráter mais urgente e estratégico: um retorno a políticas nacionais de produção, com menor dependência externa e a revalorização do consumo local frente ao estrangeiro, num movimento cujas dimensões e profundidade ainda são impossíveis de estimar com precisão.

Do ponto de vista econômico, haverá o questionamento dos governos quanto à extrema dependência da China e de outros países, especialmente asiáticos, enquanto fábricas do mundo, reforçando e resgatando conceitos que provoquem um novo fôlego a projetos de desenvolvimento nacional que supram maior autonomia em questões vitais como segurança, saúde e alimentação. A atual crise gerada pela pandemia da Covid-19 promete dar um novo relevo e papel aos governos de cunho nacionalista, com todos os riscos que esse tipo de evento pode gerar, tendo a história como testemunha. De se notar, que estaremos diante de um paradoxo desse novo tempo: justamente no momento em que o mundo precisa ser mais colaborativo e integrado para gerar consensos globais em questões críticas como a ameaça climática, nuclear e da Inteligência Artificial, um evento de magnitude colossal e em sentido contrário, desafia mais uma vez a humanidade a se superar e avançar.

Na agenda social, as mudanças também se pronunciam de grande alcance. Os períodos de quarentena, as dificuldades de locomoção entre países, bem como os efeitos do pânico sobre a população, devem desencadear mudanças profundas, não apenas na forma como desfrutar a vida, mas também no modo de consumo e valorização das comunidades, das relações pessoais e sociais, numa espécie de novo tribalismo. Isso poderá dar um forte impulso ao comércio local, reforçar as cadeias produtivas regionais, fortalecer ainda mais o cooperativismo e outras formas de associativismo, alçando pequenas indústrias, comércio e serviços a maior destaque estratégico. Os governos tenderão a desenhar políticas mais adequadas para o fortalecimento de projetos que reforcem o turismo interno, apoiem iniciativas que permitam a inserção social dos menos favorecidos e incentivem práticas comunitárias, quer na esfera econômica, quanto social e cultural.

Esse novo mundo que se prenuncia, menos global, mais tribal e autocentrado, não pode e não deve abrir mão das extraordinárias conquistas que a globalização trouxe até aqui. É preciso conjugar, simultaneamente, um necessário repensar dos exageros e dependências críticas que se criou entre os países, porém sem esquecer, que a complexidade do mundo atual vai requerer cada vez mais uma forte coordenação entre as nações. Eis talvez, o maior desafio deste século!

 

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