Sábado, 09 de maio de 2026
Por Edson Bündchen | 7 de maio de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Mais uma eleição presidencial se aproxima e mais uma vez o papel do Estado é colocado em debate. O tema, sabemos, é da maior importância, porém algumas declarações já antecipam que novamente iremos oscilar entre dois polos simplistas: de um lado, a crença de que “menos Estado” é o caminho natural para a prosperidade; de outro, a ideia de que ampliar o papel estatal é condição suficiente para promover crescimento e reduzir desigualdades. Ambas as visões, embora politicamente úteis para atrair votos, falham em capturar o que a experiência internacional realmente mostra e o que o Brasil realmente precisa.
A evidência acumulada nas últimas décadas, observando-se inúmeros países, aponta para uma conclusão menos intuitiva, porém mais robusta, sinalizando claramente que o desenvolvimento não depende do tamanho do Estado, mas da sua qualidade, da sua relação com as forças e fraquezas nacionais, com a cultura local, com a robustez de suas instituições e, especialmente, da qualidade das propostas de mudança e da força política para implementá-las. E é principalmente nesse equilíbrio de variáveis que reside o caminho para as mudanças.
Essa distinção é crucial. Países com estruturas estatais diminutas não são necessariamente mais ricos, muitos deles, como diversas economias frágeis, possuem baixa carga tributária e gasto público reduzido, não por escolha estratégica, mas por incapacidade institucional. São Estados, a exemplo do Haiti, Afeganistão, Guatemala e outros, que não conseguem arrecadar, regular ou prover serviços básicos de forma eficaz. Nesse contexto, “menos Estado” é sintoma de fragilidade e não uma virtude associada a planejamento eficaz.
Por outro lado, várias das economias mais avançadas do mundo combinam níveis elevados de gasto público com alto grau de eficiência institucional. Não se trata de Estados inchados e desorganizados, mas de estruturas capazes de oferecer segurança jurídica. Os países nórdicos são os exemplos mais eloquentes dessa realidade, cujas políticas públicas consistentes garantem um ambiente previsível para investimentos e inovação.
O ponto central, portanto, não está na quantidade de Estado, mas na sua capacidade de funcionar bem.
Esse diagnóstico também ajuda a esclarecer um mal-entendido frequente no debate público: o uso de indicadores econômicos como prova de teses ideológicas prévias. Índices internacionais que medem aspectos como liberdade econômica, ambiente de negócios ou qualidade regulatória frequentemente são apresentados como evidência de que reduzir o Estado levaria automaticamente ao desenvolvimento. No entanto, esses índices são compostos por múltiplos fatores, muitos deles relacionados à qualidade institucional, e não sustentam, por si só, relações causais tão diretas.
Quando se observa o quadro completo, o padrão que enxergamos é outro: países bem-sucedidos tendem a combinar mercados relativamente dinâmicos com instituições sólidas e um Estado capaz de cumprir suas funções essenciais.
Isso inclui garantir direitos de propriedade, respeitar contratos, investir em capital humano, manter estabilidade macroeconômica e corrigir falhas de mercado quando necessário. Nenhuma dessas tarefas é trivial, e todas exigem capacidade estatal.
No caso brasileiro, insistir na dicotomia entre “mais” ou “menos” Estado pode ser um desvio de foco. O desafio central não é reduzir ou expandir indiscriminadamente o setor público, mas torná-lo mais eficiente, mais previsível e mais orientado a resultados.
Isso implica enfrentar problemas conhecidos, tais como a baixa qualidade do gasto, complexidade tributária, insegurança jurídica e dificuldades de coordenação entre políticas públicas. Ao mesmo tempo, exige preservar e fortalecer funções que são indispensáveis ao desenvolvimento, como educação, infraestrutura e regulação adequada.
Em última instância, a pergunta relevante não é “quanto Estado queremos”, mas “que tipo de Estado precisamos?”.
A resposta, como mostram as experiências mais bem-sucedidas ao redor do mundo, passa menos por slogans e mais por instituições que funcionam.
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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