Segunda-feira, 03 de Agosto de 2020

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Lenio Streck A era da técnica e a desumanização do humano

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Vivemos na era da mera informação. Transmitida pela mais alta tecnologia. Que fragiliza ou acaba com a comunicação e transforma o homem em suco. (Foto: Reprodução)

Heidegger disse que, depois da vontade do poder de Nietzsche, é a era da técnica que funciona como o novo princípio que sustenta os discursos.

Tinha razão o filósofo. Vivemos na era da mera informação. Transmitida pela mais alta tecnologia. Que fragiliza ou acaba com a comunicação e transforma o homem em suco.

Despiciendo repetir que a internet se transformou no território dos néscios, imbecis e afins. O mundo ao alcance de sua mão. Ou de sua digitação. Ou de seus emojis. Já não se escreve. Coloca-se um desenho (emoji). E os néscios atacam em bandos. Você acerta um e vem mais centenas deles. Idiotas são solidários entre si. Gostam de retransmitir notícias falas. Requentar outras. São a favor da pena de morte. São moralistas. Vociferam contra os políticos. Votam mal e depois dizem que “é tudo igual”.

Tudo está a indicar que foi essa era da técnica que reforçou o time de néscios, baba- ovos, proxenetas da notícia falsa e guardiões da ignorância e da leitura de orelha. Talvez eles sempre tivessem em tamanha maioria e não tivessem o veículo “certo” para ruminar.

Então fez-se a internet. Império dos bobalhões. De hora em hora, ele tem de postar algo no face. Tem de mostrar o que está fazendo. Sempre mostra a sua felicidade.

Com o tempo foi surgindo uma nova raça: a dos recicladores de porcarias que são postadas. Com isso, há um sensível incremento no lixo que circula. O “produto reciclado” vai para as tv’s e rádios.

Radialistas e apresentadores acabam se transformando em devoradores da “carniça noticiada”. Fulano disse que o cara do Big Brother fez tal coisa. Luciano Hulk apagou post com Ricardo Eletro, que foi preso e já foi logo solto.

Vivemos o império do simulacro. Até a gravação da NET ou da SKY (ou da SKYNET – lembram da empresa de robôs que tiraniza a sociedade do futuro no filme O Exterminador do Futuro?) é uma provocação ao bom senso. Você liga e a voz da gravação imita estar digitando. Já encontrei a sua ficha. Agora anote aí o seu protocolo… Se quiser que eu repita, digite 1. Se não, 2. Agora, vamos ver se te ajudo: se o seu problema é…, digite 1; se for…2 (a gravação troca os pronomes tu e você…!).

Depois de dez minutos, você talvez consiga falar com um atendente (do Tocantins, onde o ISSQN é mais barato) e que pede todos os seus dados de novo (mesmo que o robô já tenha digitado e dito que havia encontrado a sua ficha). Quase não se escuta a moça do Tocantins, por causa do barulho. Ela vai estar te ajudando. E dirá para você tirar a tomada do conversor e colocar de novo depois de dez segundos. Mas, o robô já havia mandado fazer isso…

Então você fica pensando: no que se transformou a humanidade? Quer reclamar? Ligue para a ouvidoria. Ah, mas tem de ter o protocolo de sua reclamação. Ou pensa que pode ligar para a ouvidoria assim, de primeira? Sem protocolo, a moça não estará te ajudando (sic). A mesma coisa é com os cartões de crédito. Disque 1 se você é trouxa; 2, se é imbecil; 3, se tem 5 anos de idade; 4, se você ainda não é cliente; mas, antes disso; digite pausadamente o seu CPF seguido de asterisco…

E as empresas de telefonia? Experimente ligar para reclamar de seu sinal. Disque… Tudo igual às outras empresas. Gosto quando eles “vão estar te enviando um reforço de sinal”. Bingo. Binguíssimo. Pindorama deve ser um laboratório de experimentos de idiotas.

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