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Colunistas A herança de Lutzenberger e a lição da Borregaard

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José Lutzenberger, engenheiro agrônomo e visionário, enxergava o planeta como um organismo vivo, interdependente, frágil e sagrado. (Foto: Arquivo/Agência Brasil)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Há meio século, o Rio Grande do Sul viveu um episódio que transformou para sempre a relação entre desenvolvimento e consciência ambiental no Brasil. Nos anos 1970, quando o país ainda respirava uma necessidade cega pelo progresso industrial, o governo gaúcho abriu suas portas para o capital estrangeiro com um lema que hoje soa quase inacreditável: “Venham poluir aqui”. Era o retrato de uma época em que a poluição era vista como sinal de prosperidade, e o meio ambiente, um obstáculo a ser vencido. Foi nesse cenário que a empresa norueguesa Borregaard instalou sua fábrica de celulose em Guaíba, às margens do rio que dá nome à cidade.

O que se seguiu foi uma história de resistência popular e despertar coletivo. A Borregaard trouxe consigo um cheiro ácido e sufocante que se espalhava por Porto Alegre, denunciando o preço do progresso. O odor de repolho azedo, como muitos lembram, tornou-se símbolo de uma ferida aberta. Mas também foi o ponto de partida para uma das mais belas mobilizações civis da história brasileira. Da indignação floresceu a AGAPAN — Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural — e com ela emergiu uma voz que mudaria o curso da consciência ambiental no país: José Lutzenberger.

Lutzenberger, engenheiro agrônomo e visionário, enxergava o planeta como um organismo vivo, interdependente, frágil e sagrado. Enquanto o mundo industrial celebrava o lucro, ele falava de equilíbrio, de respeito, de limites. Sua postura era quase herética num tempo em que questionar o modelo desenvolvimentista era visto como atraso. Mas foi justamente essa coragem que o transformou em símbolo. Lutzenberger não apenas denunciou a Borregaard — ele desafiou o próprio conceito de progresso.

A luta contra a fábrica foi intensa e poética. Houve o abraço simbólico ao Guaíba, o enterro do rio, as marchas silenciosas e as palestras inflamadas. Porto Alegre, acostumada à tranquilidade provinciana, viu nascer um movimento que unia estudantes, professores, donas de casa e trabalhadores em torno de uma causa comum: o direito de respirar. A Borregaard acabou fechando as portas, mas deixou um legado que ultrapassou fronteiras. O episódio foi o embrião do ambientalismo brasileiro, e Lutzenberger tornou-se a referência.

Neste ano em que se celebra o centenário de seu nascimento, é impossível não refletir sobre o alcance de sua mensagem. Lutzenberger não foi apenas um ambientalista — foi um pensador que antecipou debates que hoje dominam o mundo: sustentabilidade, responsabilidade ecológica, ética planetária. Ele dizia que o ser humano não é dono da Terra, mas parte dela. Que a arrogância tecnológica e o consumo desenfreado são sintomas de uma civilização doente. Suas palavras, antes vistas como utopia, hoje soam como advertência.

O caso Borregaard é mais do que uma lembrança histórica; é um espelho. Mostra como a sociedade pode se transformar quando decide não aceitar o inaceitável. Mostra que o poder da mobilização popular é capaz de reverter decisões políticas e econômicas. E mostra, sobretudo, que a consciência ambiental não nasce de decretos, mas de indignação e amor.

Lutzenberger deixou o mundo em 2002, mas sua presença continua viva nas margens do Guaíba, nas escolas que ensinam educação ambiental, nas leis que protegem nossos biomas e nas vozes que ainda se levantam contra a destruição. Seu legado é o de um homem que ousou dizer “não” quando todos diziam “sim”. Um homem que acreditava que preservar não é um ato de resistência, mas de inteligência.

Hoje, quando o planeta enfrenta crises climáticas, tornados, enchentes, queimadas e escassez de água, lembrar Lutzenberger é mais do que um tributo — é um chamado. O centenário de seu nascimento não deve ser apenas uma celebração, mas um compromisso. Que a história da Borregaard sirva de alerta e inspiração: o progresso sem consciência é regressão. E que o exemplo de Lutzenberger continue a nos ensinar que cuidar da Terra é cuidar de nós mesmos.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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