Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 17 de junho de 2023
A queda acentuada da taxa de natalidade no Japão tem provocado o esvaziamento das salas de aula e o fechamento de uma média de 450 escolas públicas por ano.
Segundo o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciências e Tecnologia (MEXT), 8.580 instituições de shogakko e chugakko (equivalentes ao ensino fundamental 1 e 2) encerraram suas atividades entre 2002 e 2021.
Do total, 74% ainda mantêm instalações escolares, sendo que cerca de 5,5 mil estão sendo utilizadas como centros comunitários ou ganhando sobrevida na forma de pousadas, galeria de arte, aquário, e até fábrica de saquê. O restante das escolas fechadas continua sem uso por falta de demanda da comunidade ou devido à deterioração das instalações.
Demolir é uma decisão penosa para os japoneses, que atribuem à escola um papel que vai além de local de estudo.
“Elas são o núcleo da formação da comunidade”, diz à BBC News Brasil Takahiro Hisa, professor da Faculdade de Sociologia Aplicada da Universidade Kindai, no Japão.
“No Japão, o pátio e o ginásio das escolas primárias costumam ficar abertos em períodos de recesso escolar, feriados e à noite, para receber muitas atividades comunitárias”, acrescenta.
Em casos de desastre natural, como terremoto e tufão, elas são importantes locais de abrigo.
A importância dada ao ambiente escolar é forte entre os japoneses.
Um estudo comparativo sobre desenvolvimento urbano em áreas de imigração no Sul do Brasil, realizado por Tohru Morioka, então professor assistente da Universidade de Osaka, no Japão, constatou que cidades ocupadas por imigrantes italianos e alemães tinham as igrejas como o centro da comunidade, enquanto em regiões de concentração nipônica, como Registro, no interior de São Paulo, esse papel cabia às escolas.
Preservar esse sentimento da comunidade é um desafio para o Japão de hoje.
Por meio do projeto “Escolas fechadas para todos”, implantado em 2010, o governo tenta equacionar o envelhecimento da população e o despovoamento com a revitalização regional, aproveitando o protagonismo das escolas e a infraestrutura já existente.
“Com a população em declínio, o interessante é utilizar efetivamente os recursos locais disponíveis, em vez de construir novas instalações”, afirma Hisa.
Em meio século, o número de alunos matriculados no ensino fundamental no Japão caiu pela metade. Atualmente, há cerca de 9 milhões matriculados no ensino fundamental (sendo 2,9 milhões no shogakko e 2,9 milhões no chugakko) — e uma rede de 28 mil escolas públicas para esses níveis.
Os picos ocorreram em dois momentos da história japonesa: em 1958, quando 40 mil escolas públicas atendiam 18,6 milhões de alunos do ensino fundamental (13 milhões no shogakko e 5,6 milhões no chugakko), filhos do primeiro baby boom (1947-1949). Em 1981, houve outro grande salto no corpo discente com a chegada da geração do segundo baby boom (1971-1974).
Desde então, o índice de ocupação das salas de aula segue em queda, não havendo qualquer possibilidade de reversão. Pelo contrário. No ano passado, pela primeira vez o número de nascimentos no Japão ficou abaixo de 800 mil, indicando que mais escolas vão ter suas portas fechadas.
Por meio de uma publicação em seu site, o MEXT fornece informações sobre as instalações escolares fechadas em cada governo local, que estuda as propostas de interessados. A permissão para uso das instalações é concedida a operadores que se comprometam a apoiar a comunidade local, promover a revitalização regional e gerar emprego.
Entre as vantagens apresentadas, estão os espaços separados disponíveis, como salas de aula, pátios, ginásio e até piscina, além da infraestrutura pronta (eletricidade, gás, esgoto), inclusive no quesito segurança em casos de desastres naturais.
Apesar de metade das escolas públicas no Japão terem mais de 30 anos, construir um prédio semelhante do zero levaria muito tempo e custaria muito dinheiro (1,3 bilhão de ienes, aproximadamente R$ 47 milhões).
Uma transformação ocorreu na cidade de pescadores Muroto, na província de Kochi, onde metade dos 13 mil habitantes tem mais de 65 anos.
Lá, uma escola primária fechada 17 anos atrás virou um aquário para atrair turistas à região. Você encontra tubarão-martelo e tartarugas nadando na piscina externa de 25 metros, e mil criaturas marinhas de 50 espécies expostas em tanques temáticos distribuídos pelas salas de aula.
Em Nishiizu, na província de Shizuoka, um prédio escolar fechado depois de 65 anos de uso se transformou em alojamento para jovens.
A escola chegou a ter 241 alunos no auge, em 1941, e apenas 45 matriculados quando encerrou suas atividades em 1973. Revitalizado com o nome de Yamabiko-so, o local não perdeu seus principais traços de escola. As informações são da BBC News.
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