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Lenio Streck Alguém, por certo, gerencia esse caos todo, pois não?

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Giuliano da Empoli, autor de Os Engenheiros do Caos. (Foto: Reprodução)

Sou assinante da Globo.com. Impossível entrar em contato. Não há telefone disponível. Há robôs. Para quem gosta – essa turma que aposta a vida na startupitização – deve ser um gozo ficar digitando e ver milhões sofrerem para eles (essa gente dos algoritmos) terem felicidade. Esse excesso de tecnologia ainda vai acabar com o mundo. Só quando os que extinguem o emprego de milhões e, graças à tecnologização, também perderem os seus empregos, é que o bicho vai pegar. E eu direi: bem feito.

Em termos políticos, a chegada do BIG Data poderia ser comparada à invenção do microscópio. No passado, a partir de sondagens sempre aleatórias, os comunicadores políticos podiam atingir grandes aglomerações demográficas ou profissionais. Hoje, o trabalho dos físicos características individuais. Essas características são capturadas de suas redes sociais.

Quem escreve isso é Da Empoli, autor de Os Engenheiros do Caos. Bem assim. Cada dia somos capturados pela tecnologia.

Empresas substituem pessoas por robôs. Esses robôs imitam até o teclado de um computador. A questão é: se a tecnologia extingue empregos, isso não deveria vir para melhorar a vida das pessoas?

Resposta errada. Não veio. A cada emprego perdido pela tecnologia cinco pessoas terão aumentos de sofrimento. Um, porque perdeu o posto de trabalho, 2 no mínimo, os seus familiares. Os outros são os consumidores (lato sensu) que enfrentarão algoritmos nas suas demandas.

Façam o teste. Eleições. Melhorou com fake news e quejandos? As neocavernas – grupos de whatsapp – se transformaram em um inferno. Instagram? Que serventia tem um mecanismo em que as mensagens ficam no ar algumas horas? E por que você precisa saber ou tem interesse pela pizza que alguém comeu?

Bancos. Despediram milhões. Melhorou? Ah, está bem. Tem o aplicativo. Concordo. Não preciso ir ao banco. No entanto, quando há um problema, o que você faz? Liga para a central 0800 do Banco.

E seu cartão de crédito? Uma compra indevida? Pronto. Vá até a Igreja Universal e reze. Para ter paciência. A atendente “vai estar te atendendo” … Bom, o resto é puro infernização.

TV a cabo. Ligue “djá”. Sua internet tem problemas? Bah. Lamento. O robô dirá: você já desconectou o fio? Repita a operação. E pode acessar nosso site. Agora tem também um whatsapp para falar com um robô. Ah, vão se afumentar. SkyNet – eis a palavra chave.

Peço que façam a experiencia. Façam whatsapp com um robô. E depois me contem.

Eis como melhorou a vida das pessoas. Shopping Center agora é pagamento no totem. Despediram os funcionários. Agora “melhorou”. Tem fila nos totens. Ah: reclame para o shopping que o seu carro bete em baixo quando sai da garagem subterrânea. Boa. Então ligue para o shopping… E chore,

Voltando ao Da Empoli: há engenheiros dirigindo esse caos, das eleições às plataformas de enganação de utentes. Compre no Mercado Livre. Tenha essa experiência. Você pode devolver a mercadoria em sete dias. Vamos. Faça isso. É mole.

Deu errado? Pena. Ingresse com ação judicial. Nos juizados. Os julgamentos são à notinha. Você pode escolher o montinho de gente que quer fazer acordo ou os que não querem. A empresa nunca fará acordo. Você alegou dano moral? Pena. O judiciário, por meio de uma juíza leiga, dirá: você teve um mero aborrecimento. Só porque a operadora de sinal acabou com seu final de semana e mesmo assim levou mais oito dias para mandar um técnico (que afinal, você teve que agendar por um aplicativo que você nem queria ter), você não teve nenhum abalo moral. Por isso, ganhará 500 reais.

E assim as empresas apostam nos algoritmos. É vantagem atender mal. Na verdade, nem atender. As máquinas atendem. Como as empresas sabem que poucos ingressarão em juízo e o judiciário dirá que tudo é mero aborrecimento, você verá que não atender, atender mal e sacanear o consumidor é um grande negócio.

Mas você sempre pode ligar para o SAC.

Post scriptum: se existir um serviço pior do que a Sky, me avisem.

 

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