Quinta-feira, 03 de Dezembro de 2020

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Lenio Streck Os engenheiros do caos contemporâneo: as montanhas nos aguardam!

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O recente livro de Giuliano da Empoli traz impressionantes desnudamentos de uma obviedade: a de como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. (Foto: Reprodução)

O recente livro de Giuliano da Empoli traz impressionantes desnudamentos de uma obviedade: a de como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. O nome do livro é, exatamente, Os Engenheiros do Caos.

O livro mostra como defeitos e gafes são transformados em virtudes. Idiotices viram “autenticidades”. Preconceitos se transformam em “sinceras opiniões”.

Ciência já não vale. O bom é o senso comum. No Brasil temos, agora, dois “paradigmas” (palavra que uso aqui em termos caricatos): além do “você sabe com quem está falando”, agora tem “quem você pensa que é? Só porque estudou acha que sabe mais do que quem não estudou bulhufas”?

Mas tudo isso não é produto dos próprios líderes. Há uma construção que sustenta esses populismos “pós-populistas”. Há gurus que ajudam a espalhar e introjetar esses tipos de discurso que, para além de Empoli, o italiano Carlo Cippola e o brasileiro Mauro Mendes Dias chamam de Discursos da Estupidez. Veja-se: estupidez não é sinônimo simplesmente de ignorância. Estupidez é um discurso construído a partir da ocorrência de uma série de fatores que constituem uma espécie de “ponto surdo do discurso”.

Veja-se o Brexit, cujo fenômeno surpreendeu meio mundo. O papel dos algoritmos, robôs, fake news e quejandos agora está sendo investigado. Como foi possível tanta distorção?

Agora mesmo lemos que tem gente que acha que Trump foi roubado nas eleições. Logo ele, o rei das fake news. Achei também bizarra a divisão dos dois corpos do rei que fez o vice-presidente da República do Brasil. Como indivíduo, reconhecia a vitória de Biden. Só um pouquinho: os dois corpos do rei, tese de Kantorowicz (que na verdade, nasce em 1495) não é assim que funciona. Mas, enfim. Também disse o Vice-presidente que a vitória de Biden está cada vez mais irreversível. Pois é. Também a tese de que a terra é esférica é cada vez mais irreversível, digamos desde há alguns…séculos.

E o que dizer da ideologização do Coronavírus? Interessante que até a extrema direita diz que o vírus foi ideologizado. Vi um jornalista, ligado a esse segmento ideológico, quem, no início, dizia que era uma gripezinha e dava razão a Trump e Bolsonaro. Depois pegou Covid. E agora diz que o vírus foi ideologizado. Pois é. Pois é, caro jornalista-radialista. E a nave vai.

Também o governo brasileiro nega as queimadas (ou a sua real dimensão). Diz que vai denunciar os países que compram madeira ilegal. Ah é? E como você sabe, Presidente? Se sabe isso, é porque tem informação correta de como a madeira saiu E se saiu, como deixaram? Isso se chama de venire contra factum proprium – comportamento contraditório. Mas bem sustentado por fake news e pontos surdos discursivos.

Como diz Empoli, estamos em uma enrascada: as forças moderadas, progressistas e liberais (que os conspiradores chamam de comunistas – até a Globo é comuna; e o Estadão; e…preencha a lista, que é interminável) continuarão a recuar enquanto não conseguirem propor uma visão motivadora do futuro, capas de trazer uma resposta convincente ao que Dominique Reynié chama de “crise patrimonial” – o medo já espalhado de perder ao mesmo tempo seu patrimônio material e seu patrimônio imaterial.

Não está fácil.

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Levar vantagem em tudo, certo? Viva o sicofantismo!
Alguém, por certo, gerencia esse caos todo, pois não?
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