Segunda-feira, 30 de Março de 2020

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Edson Bündchen Cultura cultivada

Falar sobre cultura passou a ser ainda mais necessário, particularmente num mundo em rápida transformação, onde muitas narrativas aparecem e desaparecem com espantosa velocidade. (Foto: Reprodução)

Como uma pele a moldar o comportamento de pessoas, organizações e países, os aspectos culturais e a própria cultura, enquanto parte constitutiva das organizações e da sociedade, passaram a compor a agenda estratégica de gestores públicos e privados. Falar sobre cultura passou a ser ainda mais necessário, particularmente num mundo em rápida transformação, onde muitas narrativas aparecem e desaparecem com espantosa velocidade.

Há, contudo, bastante desconhecimento acerca dos reais impactos que os motores culturais produzem na sociedade, geralmente descambando para análises, ou superficiais ou exageradamente trágicas. Essas últimas são fruto de uma indigência intelectual ainda mais contundente, que teima em afirmar que a terra não é redonda ou outros absurdos do gênero.

Tomemos, a título de exemplo, as elucubrações do polêmico escritor Olavo de Carvalho e seus seguidores, quando engendram teorias da conspiração em todo lugar, inimigos identificados na grande mídia, nas artes, na comunicação e em setores que pensam de maneira não-alinhada à chamada cartilha Olavista. Tudo, na mente dessas pessoas, seria parte de um grande plano, um grande movimento orquestrado em nome do marxismo cultural. Para combatê-lo, valem-se dos mesmos métodos que afirmam discordar.

Dentro desse cenário, assistimos a polarizações crescentes, debates rasos, desamor pelo estudo transdisciplinar e outras limitações previsíveis quando se tem, na eliminação do contrário, uma forma de olhar o mundo.

Essa rigidez intelectual não é inofensiva. No atual ambiente político, conturbado e complexo, o desapego à ciência embute riscos iminentes para toda a sociedade.

O obscurantismo intelectual é arrogante, uma vez que parte do pressuposto equivocado de que existe uma única verdade, a dele! E essa verdade precisa passar a governar a vontade de todos. É cogitada a perigosa hipótese de que é possível gerenciar a cultura.

A partir desse erro original, começa a vicejar um conjunto de narrativas sem compromisso com a ciência ou a verdade. O que vale e importa é o meu pensamento, certamente original e correto. A modéstia e a autocrítica não compõem esse cardápio autocentrado. O mundo deve girar em torno daquilo que acredito ser adequado e melhor para toda a sociedade. A cultura não será mais fruto do lento avanço comportamental dos indivíduos e da própria multifacetada sociedade, mas moldada a partir de um paradigma que me parece mais adequado.

Como, então, sair desse estado de catatonismo intelectual que nos convida a elogiar e aplaudir o “não saber” e a assumir a soberba do disciplinamento coletivo pela imposição de visões unilaterais de mundo?

O discurso alternativo ao atual estado das coisas não é nem original, pois falar que a educação é o melhor e talvez único caminho para o desenvolvimento sustentável de qualquer país é chover no molhado. Ocorre que, neste momento, esse desafio básico e angular adquire uma nova emergência e dramaticidade devido às homenagens que se faz à ignorância. Esse estado de coisas, contaminando a política, apresenta um risco real e iminente para todos. Como já dizia Michael Crichton: “a vida é dura, mas é mais dura se você for um estúpido”. Precisamos, de fato, de maior fomento à diversidade de ideias, reforço permanente à democracia e incentivo pleno a maior tolerância e amor ao saber.

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