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Edson Bündchen Decifra-me ou te devoro

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“Somente não está confuso quem está mal-informado” é uma frase que saltou das mídias sociais para espelhar um sentimento quase que generalizado de certo desconsolo diante da confusão e complexidade do mundo moderno. O mercado financeiro, sem dúvida, é um dos protagonistas responsáveis para que a assertiva acima adquira ainda mais atualidade. Falar sobre finanças, juros, câmbio, crédito e investimentos nunca foi exatamente um assunto de amplo domínio público, cabendo geralmente a especialistas a tarefa de descortinar os meandros de seu funcionamento, suas manhas e especificidades. Com o advento da internet e a incorporação de modelos matemáticos cada vez mais complexos a essa indústria, os clientes e usuários passaram a enfrentar dificuldades muito maiores para entenderem de fato sobre a miríade de alternativas ofertadas. Entretanto, se a compreensão do jargão economês sempre foi um desafio, o que se avizinha para o futuro coloca as transformações passadas num patamar quase ginasial. Ao mesmo tempo em que o mundo navega numa onda de liquidez jamais vista, com fortunas brotando da noite para o dia e o fosso entre os mais ricos e os mais pobres tornando-se não apenas um problema social, mas também moral, o ambiente das finanças atravessa o seu apogeu criativo, sugerindo rupturas inéditas tanto em termos regulatórios quanto no modo como o dinheiro deverá ser cursado de agora em diante, num processo de extrema magnitude, volatilidade e uso crescente de inteligência artificial.

No início deste ano, manchetes davam conta que o jogador Neymar, do PSG e da Seleção Brasileira, embarcou na “onda do metaverso” adquirindo dois NFTs – Non Fungible Token, por quase R$ 6 milhões. O craque brasileiro poderia ter comprado bitcoins, ou adquirido outros ativos, todos eles acessíveis e hoje comercializados por marketplaces amplamente disponíveis, garantidos pela tecnologia do blockchain, que permitiu a emergência dos atuais criptoativos que sacodem o mercado financeiro. Nesse novo universo de Open Finance, as fintechs puxam a fila da inovação, desafiando o sistema bancário tradicional, feito um enxame cibernético, mordiscando pequenos nichos, geralmente zonas de ineficiência do sistema tradicional num ritmo frenético e darwiniano. Possibilidades de venture capital alimentam o processo inovativo, agora acompanhadas por venture builder, e com a “Geração Z” absorvendo a realidade virtual com uma avidez que sugere estarmos emergindo do período neolítico.

Se com uma realidade mais estável o cuidado com as finanças pessoais já era crítico, a impermanência dos dias de hoje projeta a necessidade de uma atenção muito maior. Infelizmente, existe no Brasil um descuido com esse tema tão relevante. É comum vermos profissionais ingressarem no mercado de trabalho preparados tecnicamente para o exercício de suas especialidades, mas com enormes lacunas quando o assunto é cuidar do seu próprio dinheiro. As camadas mais desprotegidas da população compõem a face mais preocupante do atual fenômeno e são também aquelas que pagam os maiores juros ao sistema financeiro, numa combinação perversa de desconhecimento, baixa remuneração e acesso restrito à proteção de suas poupanças.

Essa discussão não deveria ficar circunscrita somente entre consultores e especialistas, mas transcender para um debate mais amplo junto à sociedade. A conexão ao mundo financeiro, seja conceitual, nessa “novilíngua” à George Orwell, e uma mínima inserção na dinâmica desse capitalismo concentrador, movediço e desenraizado, precisa chegar ao domínio comum, pelo menos em seus termos essenciais. A não compreensão dessa “nova finança global” também é um modo de exclusão. Um esforço privado e público, reconhecendo ser a educação financeira matéria elementar de cidadania, poderia ensejar uma angústia menor diante do atual contexto, franqueando um acesso esclarecido aos mercados, tornando-os menos impenetráveis, mitigando o risco social agravado pela ignorância, que reclama uma urgente e inadiável alfabetização financeira.

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