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Edson Bündchen Desafinados

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O Brasil ingressa em 2022 precisando de ajustes importantes e urgentes na partitura que deve embalar, orientar e motivar a população para não deixá-la fora de tom. Diferente de uma orquestra afinada, entretanto, no cotidiano, os desafinados colocam em risco a normalidade, ameaçam o futuro com seus desarranjos e desatinos, alimentam uma perigosa retração nas artes, nos costumes, na cultura, no meio ambiente, opondo-se, geralmente sem fundamentos razoáveis, às forças do progresso, civilizatórias e humanistas. De fato, é um fenômeno não desprezível, e tem se consubstanciado, tragicamente, inclusive e de forma mais aguda, com o advento da atual pandemia, em posturas anticiência, antivacina e contra protocolos regulares, ratificados pelos órgãos de saúde. Cada vez mais contundentes mundo afora, e também em terras tupiniquins, o coro dos desafinados é imune a dados e fatos, confundindo fé e racionalidade, numa alquimia que redunda em atraso, rancor e intolerância, colocando em risco não apenas os avanços da modernidade, mas comprometendo o futuro das próprias democracias.

Quem são, e onde estavam escondidos os vanguardistas do atraso? Quais as forças e motivações que os trouxeram à tona? De onde tiram suas convicções duvidosas, contraditórias, mas repletas de certezas? Haverá como trazê-los à luz? Não há espaço, aqui, para todas essas respostas. Mas, a título de ilustração, pensemos nos programas de TV e mídia social que apresentam entrevistas com pseudocientistas a defender o terraplanismo. Não se enxerga constrangimento nos detratores da ciência. De risível, num primeiro momento, emerge a preocupação logo em seguida, quando a argumentação improvável adquire ares mais circunspectos. Por trás desse fenômeno aparentemente inofensivo, esconde-se algo mais grave: um apego à frivolidade e um escancarado desamor e até desprezo pelo avanço lento, gradual e sistematizado do conhecimento científico. Uma onda de celebração à ignorância invade outros terrenos e espaços, empobrecendo não somente o debate, mas infiltrando-se no tecido social como se a futilidade e a estupidez fossem capazes de redimir um incômodo existencial que não encontra vazão suficiente na fluidez das redes sociais.

Há, contudo, esperança. Dizer não a esse estado de briga permanente com o bom senso, e com a própria vida, é uma atitude urgente de qualquer um que deseja um 2022 melhor. Esse processo de impermanência, no qual avanços frágeis são solapados por teimosos retrocessos, precisa ser superado por um horizonte mais estável e promissor. A conexão das pessoas com essa agenda de afirmação, e não de negação, com desprendimento para trazer o entendimento como força política, em seu sentido mais justo e fraterno, com acordes afinados e o maestro certo, poderá ensejar a cadência correta. Há razões para acreditar nisso. Nos últimos 100 anos, apesar de todas as dificuldades, o Brasil avançou em muitos sentidos, tornando-se uma das dez maiores economias do mundo, transmutando-se de um país eminentemente extrativista, rural e escravocrata, numa sociedade mais complexa e desenvolvida, sem esquecer, obviamente, o déficit social gigantesco ainda existente e que reclama por um projeto efetivo. Se ainda lutamos por maior igualdade e menos pobreza, maior tolerância e respeito à diversidade, é preciso reconhecer que, em olhar retrospectivo, houve evolução. Fugindo do extremado catastrofismo e de uma candura estéril, é possível e necessário apostar no ideal de progresso inclusivo e justo, até porque a maioria da população clama por harmonia e paz social. A razão e a ciência podem impulsionar o florescimento humano, em contraste inequívoco com aqueles que teimam em apostar no anti-iluminismo, na força bruta, na intolerância e na violência como formas de expressão. Nadar contra essas forças do atraso, do autoritarismo, do pensamento mágico e outras parvoíces, exploradas por demagogos e charlatães, pode projetar 2022 como o recomeço de um Brasil mais afinado com seus desígnios originais.

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