Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 1 de novembro de 2023
Poucos metros separam o orfanato Mabarat al-Rahma, no norte da Cidade de Gaza, do bairro de al-Karama, alvo das forças israelenses na última terça-feira (31) durante incursão terrestre ao enclave palestino. A casa abriga 40 pessoas, entre elas 25 crianças com deficiência protegidas a todo custo por Hazem al-Eneri, de 39 anos. O palestino já conhece de cor os sons de bombardeios em Gaza, mas busca de todas as formas blindar os pequenos de qualquer contato com a guerra, enquanto enfrenta uma batalha interna: a falta de água.
Fundado em 1993, o abrigo, financiado por ONGs do mundo ocidental e do Oriente Médio, recebe crianças de até 12 anos com deficiências e mulheres solteiras que, mesmo depois da maioridade, decidem permanecer no orfanato. Atualmente, vivem lá 25 pequenos com deficiências motoras e mentais, entre eles, cadeirantes, e outras 15 mulheres, que ajudam no cuidado dos menores com necessidade de assistência médica e fisioterapêutica. No entanto, Hazem busca deixar o medo e a violência da guerra, que assolam a região desde 7 de outubro, do lado de fora de orfanato, focado na preservação da saúde mental das crianças.
“A situação é muito difícil. Eles estão chorando o tempo todo, assustados com as bombas. Tentamos brincar com eles o tempo todo, aumentar o volume da televisão para tentar abafar o barulho. Buscamos entreter as crianças, pra fazer com que não tenham vontade de sair às ruas”, conta Hazem ao jornal O Globo, entre os sons de bombardeios que podiam ser ouvidos do outro lado da ligação.
Como forma de blindar as crianças das atrocidades da guerra, Hazem e o também diretor Hussem Ahmed já chegam com uma resposta pronta para confortar os pequenos, que se assustam com os barulhos de bombas e explosões. Ao perguntarem sobre as causas dos barulhos aterrorizadores que vem de fora do abrigo, o diretor do orfanato já responde.
“Algumas vezes, informamos que os sons são causados por trovões ou de festivais de casamentos. Aqui em Gaza, é muito comum comemorarmos em festividades com rajadas de tiros, especialmente em matrimônios”, conta. “Não tenho dúvida que eles se sentem aterrorizados, mas nós nos esforçamos muito para aliviar o sentimento deles o máximo possível.”
As histórias sobre o que acontece fora do abrigo, porém, não aplacam as necessidades vividas dentro da casa. Apesar de ainda ter estoque de comida e remédios, Hazem conta que, por conta da falta de água na Faixa de Gaza, há racionamento e só “temos água potável para mais uma semana”.
Mesmo com suprimentos suficientes para manter a operação até a terça, os diretores do orfanato explicam que as barreiras ao financiamento de ações humanitárias em Gaza – impostas por Israel desde os ataques do Hamas no início de outubro, que deixaram mais de 1,4 mil israelenses mortos – podem comprometer o funcionamento das atividades em médio prazo. A organização recebe doações de pessoas físicas e de associações sem fins lucrativos de países como Inglaterra, Turquia, Canadá e de países do mundo árabe.
“Caíram as doações desde o começo da guerra porque Israel não deixou que as associações transferissem dinheiro para Gaza, alegando que seria financiar o terrorismo. Mas nós só trabalhamos para ajudar crianças. Quando tentam enviar recursos para cá, a resposta que escutam, contam, é que ‘deveriam mandar para a Ucrânia, e não para Gaza’”, denuncia Hazem. As informações são do jornal O Globo.
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