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Geral Empresa de Israel não controla quem governos espionam com o software Pegasus

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Mais de 50 mil números de telefone foram selecionados para espionagem, incluindo os aparelhos de jornalistas, ativistas de direitos humanos, de chefes de Estado. (Foto: Reprodução)

Poucos têm acesso ao mundo ultrassecreto do NSO Group, fabricante israelense do sistema de espionagem Pegasus, no centro de um escândalo global de invasão de telefones. O ex-embaixador da França nos EUA Gérard Araud é uma dessas pessoas.

O diplomata recém-aposentado assumiu um cargo de consultor no NSO em setembro de 2019, logo após deixar seu posto em Washington durante a Presidência de Donald Trump, e ocupou o novo cargo durante um ano.

Araud não acredita que a companhia dispunha dos meios para verificar o real uso do seu programa. Para ele, o único instrumento que a empresa tinha após a venda do Pegasus era não propor atualizações do programa aos clientes, caso se comprovassem violações dos termos do contrato.

A exportação é regulada “como uma venda de armas”, disse Araud à AFP. O NSO deve buscar a aprovação do governo israelense para vendê-lo, e os Estados clientes devem assinar um contrato comercial que estipula como o produto será usado.

Os clientes deveriam fazer uso do Pegasus apenas para combater o crime organizado ou o terrorismo, segundo o argumento comercial da empresa.

“Mas conseguíamos ver bem todos os desvios possíveis, pelos quais a empresa não era responsável”, disse o ex-embaixador.

Ele está convencido de que o NSO Group trabalha em parceria com os serviços secretos israelenses do Mossad, e possivelmente com a CIA.

“Havia essa pergunta sobre a presença do Mossad ou da CIA. Pensava que eram os dois, mas não tinha provas. Mas acho que o Mossad e a CIA estão por trás”, ele afirmou.

Estes dois serviços de segurança “poderiam monitorar a implantação de Pegasus e, eventualmente, os dados coletados”, acrescentou.

Segundo Araud, três americanos que faziam parte do conselho consultivo do grupo mantinham relações com a agência de inteligência americana. De acordo com ele, a empresa afirmou que sua tecnologia não poderia ser utilizada para grampear números de telefone nos Estados Unidos.

A missão de um ano de Araud, junto de dois consultores externos americanos, era avaliar como a empresa poderia melhorar seu balanço em termos de direitos humanos.

A empresa foi comprada em 2019 pelo grupo londrino Novalpina, que contratou Araud para fornecer recomendações para tornar os procedimentos de segurança “mais rigorosos e um pouco mais sistemáticos”, segundo ele.

“Eu aceitei porque me interessava. Era um mundo novo (para mim)”, disse Araud, que também foi embaixador da França em Israel no início dos anos 2000.

Nos escritórios da NSO, ele encontrou o ambiente típico de uma start-up de tecnologia: equipes de programadores “todos com entre 25 e 30 anos, de chinelos, camisetas pretas e detentores de um doutorado em ciência da computação”.

“Todos votam na esquerda, é claro”, ele disse.

As denúncias envolvendo abusos do sistema Pegasus – sobre o qual pairavam suspeitas há muitos anos, sem que fosse conhecida a escala de seu alcance – começaram a ser feitas no domingo, lideradas por um consórcio de 17 jornais internacionais, que receberam o material da ONG francesa Forbidden Stories e da Anistia Internacional.

Segundo registros obtidos, mais de 50 mil números de telefone foram selecionados para espionagem, incluindo os aparelhos de jornalistas, ativistas de direitos humanos, de chefes de Estado e até conselheiros do Dalai Lama.

O NSO Group, dono da Pegasus, diz que as denúncias são distorcidas, e diz que não tem acesso aos números espionados por seus clientes. A empresa afirma que seu sistema foi desenvolvido para monitorar apenas o crime organizado e o terrorismo, e que, no caso de abusos, inspeciona retroativamente os usos feitos pelos clientes, podendo vir a suspendê-los.

Na quarta-feira, um parlamentar de Israel disse que uma comissão interministerial anunciado pelo governo pode buscar mudanças na política de exportação de defesa do país. As informações são da agência de notícias AFP.

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