Segunda-feira, 10 de Maio de 2021

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Economia Empresas consideram a diversidade e o apoio a causas sociais como um caminho sem retorno

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O movimento, que já parecia forte, chegou ao ápice na última semana. (Foto: Reprodução)

Em um ano de pandemia, o País viu empresas doando bilhões de reais para o combate aos efeitos sociais e econômicos da crise sanitária, bancos se unindo para banir os pecuaristas que desrespeitam leis ambientais e, mais recentemente, centenas de companhias juntas para acelerar a vacinação contra a covid-19.

O movimento, que já parecia forte, chegou ao ápice na última semana, em meio a uma mobilização que reuniu nada menos que 800 empresas em torno da defesa da diversidade e para derrubar um projeto de lei que tentava restringir a representação da comunidade LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais) na publicidade.

Mas por que tantas empresas, que antes se mantinham silenciosas, de repente decidiram se posicionar? O executivo Walter Schalka, presidente da gigante de papel e celulose Suzano e com quatro décadas de experiência no mundo corporativo, acredita que o setor produtivo se deu conta que não existe de forma apartada ao que ocorre fora de suas salas de reunião.

“Ficou claro, enfim, que ganhar eficiência e produtividade só dentro da empresa não basta. E que não teremos uma sociedade justa se não endereçarmos os problemas sociais e estruturais do País.”

Dentro dessa busca por uma sociedade mais equilibrada, as empresas têm adotado uma miríade de causas. O grupo Mulheres do Brasil, presidido por Luiza Helena Trajano – também líder do Unidos pela Vacina –, busca a inserção feminina em cargos de liderança, mas também levanta a bandeira da igualdade racial.

O Magazine Luiza, aliás, lançou um programa de trainees voltado só a candidatos negros, para corrigir o que identificou como uma falha estrutural de sua equipe, que só tem 16% de líderes negros – e acabou seguido por outras companhias.

A tendência de olhar para fora se refletirá, cada vez mais, no que se valoriza da porta para dentro das empresas, segundo especialistas. Já há um movimento forte de extensão do conceito de licença-paternidade – para que os homens participem mais dos primeiros meses de vida dos filhos – e de definição de bônus a partir de metas ESG (sigla em inglês para ações nas áreas ambiental, social e de governança).

Sem retorno

Segundo especialistas, às empresas resta aderir aos novos tempos ou correr o risco de ficar para trás. Para o secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, Reinaldo Bulgarelli, a ação coletiva de marcas contra o PL 504 – de autoria da deputada estadual Marta Costa (PSD), que citava “inadequada influência” na propaganda – está inserida neste contexto. “De dois anos para cá, há um movimento mais vigoroso. Dou muito valor a essa mudança, porque as empresas entenderam que elas não podem ficar entregues a esse tipo de projeto. É um posicionamento de direitos humanos.”

Entre as empresas que se posicionaram contra o projeto, estão multinacionais (como a P&G), bancos (Itaú Unibanco), varejistas (Riachuelo), consultorias (PwC) e a locadora Localiza. Na quarta-feira, diante das reações, o texto foi retirado da pauta de votação e voltou para a fase de análises nas comissões.

Segundo Leandro Camilo, sócio e líder de inclusão e diversidade da PwC, esses e outros movimentos de diversidade refletem uma exigência da sociedade que consome produtos e serviços dessas empresas. “Hoje, existe uma maior disposição das empresas nesse sentido. Ainda há grandes desafios, mas esse ‘barulho’ contra o PL 504 reflete esse maior comprometimento do empresariado com essa causa que é tão importante”, diz o executivo. “As companhias estão começando a entender que fazem parte não só dos problemas, mas principalmente das potenciais soluções.”

Causa x marketing

Mas será que todos os movimentos em relação à inclusão em todos as suas formas são sinceros ou só uma forma de tentar agradar? Para Herbert Steinberg, presidente da consultoria Mesa Corporate, é preciso tomar cuidado com discursos vazios. “Você não vai ver ninguém hoje dizendo que não apoia um programa de diversidade ou de governança porque isso pega mal. Mas, daí a essas empresas serem realmente aderentes a esse princípio, é algo completamente diferente.”

Adotar essa variedade de causas sociais – de preferência, escolhendo aquelas que têm maior aderência a seu posicionamento – será também uma política comercial para as empresas, segundo Steinberg. “Não dá para ir contra a maré. É necessário entender as questões culturais e o que está acontecendo no mercado. E traduzir esse pensamento em ações, no orçamento, fazendo uma discussão de propósito.”

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