Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 10 de maio de 2021
Com promessas não cumpridas, a centenária Fiocruz tem credibilidade arranhada e provoca desconfiança. Passados dez meses do primeiro contrato federal com a AstraZeneca, só uma em cada 6,5 doses no País vem da Fiocruz.
Atrasos na produção do imunizante Oxford/Astrazeneca pela instituição, que é ligada ao Ministério da Saúde, afetaram o ritmo de vacinação contra a covid-19 no País e geraram desconfiança sobre suas previsões entre cientistas e também nos profissionais de saúde.
Em 31 de julho do ano passado, quando o governo anunciou um acordo para produzir no País a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e comercializada pela farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca, era difícil imaginar que a Fundação Oswaldo Cruz, a quem caberia levar a cabo a missão, iria se tornar alvo de críticas generalizadas e até de piadas entre cientistas e profissionais de saúde, por causa de atrasos em série na entrega do imunizante e de previsões fantasiosas feitas por seus dirigentes.
Ao longo de seus 120 anos de existência, a Fiocruz construiu uma reputação irretocável no Brasil e no exterior, pela qualidade de suas pesquisas, por sua atuação no enfrentamento de epidemias e pela eficiência na produção de diversas vacinas. A expectativa, portanto, era de que a Fiocruz liderasse a produção de vacinas contra o coronavírus, garantindo a agilidade necessária ao processo de vacinação, e adotasse uma postura ponderada em suas previsões de entrega, transmitindo à população um quadro realista sobre as perspectivas de imunização.
Ainda que o Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, tivesse largado na frente na corrida pela vacina, ao negociar uma parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac para produção da Coronavac, boa parte da comunidade médica e científica apostava que a Fiocruz, vinculada ao Ministério da Saúde, assumiria o protagonismo na luta contra o vírus.
Frustração
Mas, passados dez meses desde a assinatura do primeiro contrato com a AstraZeneca, o que se observa é que a Fiocruz desempenhou até agora um papel secundário no processo de imunização, apesar de ter turbinado a produção e as entregas de vacinas a partir de abril.
De acordo com números do Ministério da Saúde, das 46,4 milhões de doses de vacinas contra covid já aplicadas em todo o Brasil até 6 de maio, incluindo a primeira e a segunda doses, só 11 milhões, o equivalente a 24% do total – ou uma em cada quatro – foram do imunizante Oxford/AstraZeneca produzido pela Fiocruz. O restante foi de CoronaVac. (A vacina da Pfizer/BioNTech importada pelo governo, que começou a ser aplicada na semana passada, ainda não havia aparecido nas estatísticas oficiais.)
A rigor, a participação das vacinas produzidas pela Fiocruz no total de doses aplicadas até o momento é ainda menor, já que quatro milhões de doses prontas de AstraZeneca foram importadas da Índia e estão somadas à sua produção no balanço do ministério. Descontadas as doses indianas da conta, o saldo de vacinas produzidas pela instituição e já aplicadas na população cai para 7,1 milhões, o equivalente a 15,3% do total ou uma em cada 6,5 doses administradas até agora no País.
Ainda que indiretamente, esse desempenho acabou prolongando o ciclo de contágio, ao limitar o processo de imunização nos primeiros meses do ano, e gerou frustração na população, ansiosa por se “blindar” o quanto antes contra o vírus letal, que já levou quase meio milhão de vidas desde o início da pandemia, em março de 2020.
“Melhor cenário”
Procurada para falar sobre a questão e outros temas ligados à produção da vacina contra a covid, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, não quis se pronunciar, alegando não ter “disponibilidade na agenda”.
“Até agora estamos praticamente só com o Butantan”, diz o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. “Quando o Butantan fez a parceria com a Sinovac e a Fiocruz com a AstraZeneca, todo mundo acreditava que a Fiocruz iria se dar melhor, mas o que acabou acontecendo foi o contrário”, afirma o biólogo Fernando Reinach.
Os resultados parecem ainda piores quando confrontados com as promessas feitas pelos dirigentes da Fiocruz, que desde o princípio anunciaram projeções muito elevadas para a entrega das doses, desmentidas seguidamente pelos fatos. “Eles sempre tendem a prometer o melhor cenário possível – e na vida não é assim”, diz Reinach. “Nunca acontece o melhor cenário possível.”
Dificuldades
Logo depois da assinatura do contrato inicial, por exemplo, a Fiocruz chegou a falar na produção de 265 milhões de doses da vacina ao Programa Nacional de Imunização (PNI) em 2021. No fim do ano passado, porém, a previsão foi reduzida em 20%, para 210,4 milhões de doses – 100,4 milhões fabricadas com Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) importado da China e outras 110 milhões com IFA nacional, a ser produzido numa nova unidade industrial, que ainda está em construção.
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