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Carlos Roberto Schwartsmann Homens das marquises

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Com o passar dos anos, evidentemente, nossa memória mais recente tende a ficar menos aguçada. Entretanto detalhes minuciosos de acontecimentos ocorridos na infância podem ficar gravados com exatidão por toda vida.

Após me formar médico, pela Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre, fui fazer residência no Hospital de Clínicas de São Paulo. Ela se iniciou no dia 02 de janeiro de 1974, uma quarta-feira as 7h da manhã. Na preleção inicial realizada pelo nosso falecido preceptor João Gilberto Carazzato, percebemos que as regras eram claras, rígidas e deveriam ser religiosamente cumpridas.

No meio das instruções iniciais apareceu um barbeiro que cortou o cabelo de todos os residentes e raspou a barba dos que a usavam: Os pelos poderiam contaminar a cirurgias!!!

O horário deveria ser cumprido com rigor: na entrada dos plantões, no início dos ambulatórios, no bloco cirúrgico e no refeitório.

O horário era uma questão de honra, principalmente nas atividades científicas.

Era um regime pseudomilitar!

A primeira jornada foi um dia intenso de trabalho e novidades.

Era horário de verão e um novo colega do interior de São Paulo, após o jantar, convidou-me para conhecer a nova Av. Paulista que se iniciava na rua da Consolação, bem perto do hospital. Ao cruzarmos pelo Viaduto Rebouças percebi uma pessoa debaixo do mesmo deitada no chão fumando. Ao lado havia algumas caixas abertas de papelão e um colchão velho e rasgado. Identifiquei ainda uma panela quebrada e xícaras velhas.

Surpreso, perguntei ao colega residente: “O que este homem está fazendo aqui?!”. Ele me respondeu com naturalidade: “Ele mora aqui na rua!”. Retruquei: “Mas e a comida e suas necessidades fisiológicas?”. Nunca veio a resposta. Se a minha memória não me trai, foi a primeira vez que vi na minha vida um morador de rua!

Naquela época, aqui no Rio Grande do Sul, não existia isto. Até mesmo os mais pobres tinham abrigo decente numa casinha simplória.

Nosso Estado tinha o menor índice de analfabetismo do Brasil. Nas discussões com os colegas do centro do país sempre me gabei disto e repetia com orgulho: “Nós temos o melhor nível social do país!”

Os tempos mudaram, hoje no Brasil, segundo o cadastro único de programas sociais (cadÚnico) 365822 pessoas pertencem a população dos sem teto.

É um número vergonhoso e reflete a impotência, o desinteresse e a incapacidade dos nossos políticos governantes de oferecer educação, trabalho e moradia para os vulneráveis brasileiros. Principalmente falham em dar educação!

Os moradores de rua vivem como os homens das cavernas! Só existe uma diferença: eles viveram há 1 milhão de anos atrás.

Os sem tetos de hoje deveriam ser chamados: Homens das marquises!

(Carlos Roberto Schwartsmann – Médico e Professor universitário)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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