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Colunistas Lembranças que ficaram (71) – Uma missa mais do que profana…

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Pessoalmente, na minha opinião, nem Brizola (foto), muito menos Jango, eram comunistas no sentido de ditadores autocráticos. (Foto: Joedson Alves/AE)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Depois que o irrequieto, muito ativo e briguento Governador Engº Leonel de Moura Brizola deixou o Governo do Estado do RS, em janeiro de 1963, e transmitiu para o novo Governador eleito e não menos competente Engº Ildo Meneghetti, eu tinha voltado para Ijuí e, por encontros furtuitos, acabamos formando um grupo fechado de amigos que nos reuníamos todas as quintas-feiras na casa de um deles, o Nery, para um churrasco maravilhoso, sempre dispondo de carne muito especial (a irmã de um dos membros trabalhava no açougue do Frigorífico Serrano e nos fornecia uma carne 5 estrelas). Era simples: basicamente carne e farinha de mandioca, regado a vinho e cerveja. Água Mineral Fonte Ijuí para os eventuais.

O Nery, divorciado, morava sozinho num bonito chalé e grande terreno, e o churrasco era às quintas porque a faxineira vinha às sextas e, assim, limpava o ‘estrago’ feito. Éramos 11. Ocorre que, nessa mesma época, o briguento Brizola, no Sul/Sudeste, e o advogado meio cangaceiro Miguel Arraes, no Nordeste – um gritando pelas ‘Reformas de Base’ e o outro organizando suas milícias, que chamou de “Ligas Camponesas” – trabalhavam para formar os tais “grupos de 11”, onde um era o líder (comandante) e 10 soldados, constituindo-se numa milícia armada a quem caberia, na hora da revolução comunista-sindicalista que pretendiam implantar, com especial carinho e ajuda do ‘papai’ Fidel Castro, rapidamente tomar cada cidade.

A estratégia era ter, em cada município, uma quantidade de grupos proporcional à população correspondente ao tamanho da cidade, cabendo a cada grupo uma tarefa: tomar a rádio, ‘empastelar’ o jornal, prender os líderes partidários indicados, matar alguns previamente listados para, desde logo, eliminar sua influência, tomar quartéis, polícia, bombeiros, sistema de água, força e luz etc. Nunca deu em nada.

Meu pai ‘tava’ marcado para morrer no 1º dia e encabeçava uma dessas listas, pois ele era político anticomunista “dos brabos”. Em verdade, nunca tive certeza de que tenham formado e existido esses tais “Grupos de Onze”, mas era o “papo” que corria frouxo na boca de todo mundo, na época.

A estratégia até que era bem pensada. Enquanto Arraes movimentava o Norte/Nordeste e Brizola movimentava o Sul/Sudeste, Jango, influenciado pela agitação política dos dois, vivia uma severa turbulência política entre Brasília e Rio de Janeiro.

Pessoalmente, na minha opinião, nem Brizola, muito menos Jango, eram comunistas no sentido de ditadores autocráticos cerceadores da liberdade das pessoas. O Brizola era ambicioso e queria ser Presidente, mas Jango queria mesmo era viver em paz e, ambos, não passavam de últimos resquícios de um tempo de caudilhismo que, a seu modo, imperou no RS, muitíssimo diferente do ‘coronelismo’ nordestino.

Mas nós, 11 amigos – que não tínhamos nada a ver com isso –, não querendo ser, eventualmente, confundidos como sendo um desses grupos, resolvemos e tratamos logo de admitir mais 1, e nos tornamos 12. E nosso sempre esperado churrasquinho das quintas-feiras – de enorme e saudosa memória – ia acontecendo com regularidade, precisão e disciplina franciscana. Mas 12 eram os Apóstolos. Num determinado dia, um deles me telefonou perguntando: “Vai ter missa amanhã?” Missa?… Como assim?… — Ué, nós não somos 12 apóstolos?… Então amanhã é dia de nossa “missa”! — Pronto: nossos churrascos passaram a se chamar “missa”. Vai ter missa? — Não vai ter missa — e a coisa pegou…

Uma ‘missa’ bem profana, mas muito boa… nossa!… e como eram boas.

Mas um dia um mudou, outro casou, outro foi embora e… como acontece com tudo, um dia nossas “missas” acabaram. Ninguém nunca disse: olha, hoje é a última vez. Simplesmente, um dia, sem ninguém saber ou se dar conta, “foi a última vez”….

Isso foi lá por volta de 1965 e, pois, são transcorridos 62 anos, e aquelas “missas” continuam tão vivas na minha memória como se tivessem sido ontem, e parece que chego a sentir o gosto daquela carne superespecial que tínhamos o privilégio de dispor, e os amigos, e os “papos que davam rumo ao mundo”…

* Luiz Carlos Sanfelice (Contato: lcsanfelice@gmail.com)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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