Sábado, 08 de Maio de 2021

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Edson Bündchen Nas mãos de Darwin

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A despeito de toda a sua plasticidade, o moderno capitalismo traz embutidos alguns pressupostos cada vez mais desafiadores, por difíceis de serem equilibradamente implementados. Um desses problemas, talvez o mais sério, é o processo de crescente instabilidade das condições e relações de trabalho, tendo como vetores o aumento na precarização da legislação trabalhista, o desemprego estrutural de origem tecnológica e os efeitos da atual pandemia. Nesse contexto, emerge uma espécie de nova doutrina de cunho liberal que aponta para um maior protagonismo do indivíduo, sob a roupagem do empreendedorismo, situação na qual cabe a cada um de nós, sob o mantra da meritocracia, construir o nosso futuro, sem que tenhamos a segurança da proteção estatal. Essa narrativa, a despeito de estimular o autodesenvolvimento e a busca por maior autonomia, mina o senso coletivo, tornando ainda mais tenso o diálogo entre capital e trabalho, com o visível enfraquecimento de sindicatos e associações de trabalhadores. Essa tendência certamente terá impactos ainda não totalmente delineados, mas possivelmente demandará uma ação governamental mais forte na base da pirâmide, sob pena de agravar os riscos de instabilidade social, econômica e política em futuro próximo.

O declínio da indústria nacional, como grande provedora de empregos qualificados, acontece numa dinâmica em o que agronegócio amplia a sua importância estratégica na geração de renda, sem o consequente aumento na contratação de mão-de-obra. Isso ocorre pela crescente incorporação de novas e avançadas tecnologias pelo campo. Não tendo nem a indústria nem o agronegócio como alternativa, coube ao setor terciário absorver um contingente cada vez maior de profissionais, em grande medida desqualificados, revelando um quadro desolador, considerando a existência de mais de quatorze milhões de desempregados atualmente no País.

Com esse pano de fundo, a ideologia do empreendedorismo e sua filha dileta, a meritocracia, expõe aos novos entrantes no mercado de trabalho e aos demais trabalhadores uma mensagem muito clara: adapte-se ou morra! Você é capaz! Você pode! Mire as estrelas! A extensa narrativa empreendedora encontra-se enraizada no discurso de escolas de negócios, de entidades patronais, parte da imprensa e formadores de opinião em geral. É muito difícil resistir ao apelo de uma ideia tão sedutora: a de que somos capazes de conduzir o nosso próprio destino e respondermos também por nossos fracassos. Esse empoderamento, essa mensagem de que cabe ao indivíduo, e somente a ele, o sucesso ou o fracasso de sua vida, de suas decisões, e das consequências de suas escolhas pessoais, desloca o eixo da proteção estatal para a centralidade da pessoa, numa aposta no individualismo, em contraste com possibilidades mais solidárias e cooperativas.

A transformação do capitalismo industrial para o capitalismo de serviços, impulsionada pelo expressivo conteúdo de inteligência artificial da nova economia, traz consequências para além dos aspectos econômicos envolvidos. No caso dos trabalhadores, a questão de fundo que se coloca é de reconstrução da entidade classista, em bases diferentes da matriz original, de conflito permanente com a classe patronal, uma vez que ambas agora se encontram mais fragmentadas, menos sólidas e mais instáveis. Para os países, e de forma não diferente ao Brasil, caberá atuar prioritariamente em duas grandes frentes, com visão de curto prazo, sem esquecer de fincar as bases para o amanhã. De imediato, é preciso pensar numa política de renda básica para a horda de desempregados que comporão a paisagem natural, posto que a crise é estrutural. A médio e longo prazos, é inescapável prover o País de projeto educacional de qualidade e densidade suficientes para os desafios do terceiro milênio. Ao trabalhador, resta abraçar, mesmo a contragosto, sua emancipação a fórceps, compreendendo que a viagem será agora mais solitária, instável e com cada vez mais escassa cobertura social.

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