Sábado, 08 de Maio de 2021

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Edson Bündchen Fogo contra fogo

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A intolerância tem sido alimentada com fervor poucas vezes visto nas mídias sociais, nos debates políticos, na grande imprensa e junto a formadores de opinião. Há uma inegável tensão no ar. Como atributos comuns ao debate, a inexistência de empatia e compassividade, a inflexibilidade e o rancor. Subjaz a perigosa ideia de que somente com a supressão do oponente uma “nova verdade” será instaurada. Ambos os contendores, nos extremos do espectro político, se arvoram como porta-vozes dessa verdade singular, esse caminho idealizado como inexoravelmente único. Há, é preciso destacar, graves riscos matizados nesse processo. Uma das questões de vulto que se coloca para tratar desse fenômeno é se precisamos deixar claro que o incentivo à intolerância deva ser colocado fora da Lei, da mesma forma como já consideramos delituosas a incitação ao assassinato, ao sequestro, ou qualquer apologia à discriminação sexual ou racial. Há urgência nisso. A escalada da intolerância avança rapidamente. Muitos, fanatizados, apelam inclusive para tons messiânicos, devotando a seus líderes uma fé quase religiosa, suprimindo o diálogo e fomentando a intransigência.

As religiões são guiadas pela fé, enquanto os estados modernos são seculares, há mais de duzentos anos. Essa é uma diferença fundamental que precisa ser bem compreendida. Não se faz boa política com os mesmos pressupostos que movem as religiões. A escalada dessa tensão dialética agressiva, nutrida por convicções extremadas, tem ocasionado o recrudescimento da intolerância entre ambos os polos em contenda. Esse fenômeno, não fosse da atual magnitude, talvez pudesse ser desprezado. Não é o caso. O poder de minorias raivosas, e a história mostra isso, geralmente está associado a rupturas, descontrole e violência. É a versão hobbesiana na prática, tendo como palco pessoas em confronto por não poderem dar vazão a suas inquietudes políticas e existenciais sem recorrer à truculência, a ameaças, à eliminação dos contrários.

Nesse caldeirão sectário, surgem discursos e narrativas que agridem e afrontam a democracia, atacam as instituições e não se constrangem em flertar com a tirania. Diante disso, parece inevitável indagar até que ponto uma sociedade que escolhe ser tolerante deve ser condescendente com a intolerância? Devemos aceitar, em nome de uma suposta defesa da liberdade, que agressões à própria liberdade permaneçam impunes? Podemos ter uma minoria intolerante com poder para controlar e até destruir a democracia? Em caso positivo, precisamos ser mais do que intolerantes com algumas minorias intolerantes? A resposta não é simples. É quase impossível, entretanto, evitar uma batalha que seu inimigo queira a qualquer custo. Nesse caso, os valores democráticos, estrito senso, com seus princípios de tolerância e abertura, hipoteticamente estariam em desvantagem para tratar com o fundamentalismo ideológico, uma vez que não se admita a possibilidade concreta e objetiva de enfrentamento. É necessário enaltecer a feição humanista da democracia, mas não ao preço de torná-la claudicante por omissão e incúria.

Numa abordagem permissiva, a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da própria tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada, mesmo para aqueles que são intolerantes, e se não estamos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, como bem lembrava Karl Popper. Não temos figuras como Cristo, Buda ou Maomé a nos conduzir. Temos homens, muitos deles limitados, que somente conseguem avançar por intermédio de cooperação e diálogo. Pessoas comuns, fazendo coisas incomuns, em conjunto. Se cada época é salva por um pequeno punhado de homens que têm coragem de não serem atuais, conforme proclamava G.K. Chesterton, é também verdade que confrontar a intolerância, assumindo o desafio de suprimi-la, não deixa de ser uma missão atemporal, portanto sempre atual, permanente, e muitas vezes impostergável.

 

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