Sábado, 17 de Abril de 2021

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Edson Bündchen Sem atalhos

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Em tempos turbulentos como agora, emergem em considerável número aqueles que não se acanham em defender atalhos institucionais, medidas de exceção e outros comportamentos em choque direto com o Estado Democrático de Direito. Por trás desse fenômeno, não apenas é possível observar um entendimento falho dos delicados mecanismos que sustentam essa notável construção humana que são as instituições democráticas, mas também uma alta dose de intolerância, sectarismo e truculência, compondo um quadro inquietante. Esse estado de coisas não ameaça somente a democracia, mas afeta outras áreas da vida social, como a saúde, por exemplo. Durante a pandemia que assola o mundo, a ignorância tem impulsionado a negação da ciência, o uso indiscriminado de remédios sem efeito e levantado suspeitas infundadas sobre a eficácia das vacinas, abrindo espaço para o obscurantismo, em pleno alvorecer do terceiro milênio.

É preciso tato e cuidado para tratar da ignorância alheia. Incapazes muitas vezes de reconhecermos nossas próprias falhas, tendemos a postular virtudes devidas ao troco de rigor excessivo para com terceiros. Feito o reparo, não é descabido afirmar que a ignorância age em desfavor do desenvolvimento harmônico de qualquer empreendimento humano. Isso é tanto mais verdadeiro quanto menos sólidas e mais ambíguas se tornam as relações sociais, políticas e econômicas. É difícil avançar quando a estreiteza cerca a nossa visão e impede que tenhamos uma ideia clara dos fatos. Fala-se aqui mais do que somente o desconhecimento do saber básico, de uma matemática simples, de um “gap” de competências elementares, mas de lacunas comportamentais, de um saber ser, saber agir e se comportar, de uma capacidade emocional adequada e equilibrada, de uma inserção correta no mundo a partir de pressupostos universalmente consagrados. Se, individualmente, o impacto da ignorância é preocupante, quando expandido para uma fatia considerável da população, pode se converter em enorme risco coletivo.

Do ponto de vista democrático e do debate que compõe as narrativas, sejam elas do espectro político que forem, o peso do voto de um ignorante, nos termos aqui tratados, tem o mesmo peso de um letrado. O Brasil carrega essa lacuna histórica, essa constrangedora herança de contar com milhões de indigentes intelectuais, massa de manobra, de manipulação, e, sem que lhes possamos atribuir dolo ou má fé, empobrecem as possibilidades de avanços, debilitam o debate de ideias e são joguetes nas mãos de políticas e políticos inescrupulosos. Estamos reféns de uma realidade que inadiavelmente precisa ser transformada. Para isso, não existem atalhos. Consciência política e cidadã andam de mãos dadas com maior educação formal, de base, universal, de alta qualidade, com padrões de excelência que já foram capazes de reconfigurar a realidade de muitos países, a exemplo da Coreia do Sul, Singapura, Nova Zelândia e tantos outros, nos quais a educação passou a ser prioridade de Estado.

Um projeto educacional consistente é missão indelegável de qualquer nação que se imagine moderna. Enquanto esse enfrentamento contra a ignorância não ocorrer, adiaremos o nosso encontro com o pleno desenvolvimento, uma vez ser impossível imaginar um país próspero com milhões de cidadãos que mal escrevem o próprio nome, vivendo em completa alienação, que lhe solapa a dignidade de uma cidadania plena. Uma democracia vibrante, ao contrário, se fortalece pelo enriquecimento intelectual dos seus protagonistas, pela intensidade dialética com que contrários se defrontam, mediados e amparados pela razão e pelo conhecimento, em oposição à escuridão que as más políticas reservaram a milhões de brasileiros, alijados de uma justa e necessária emancipação através da educação. É urgente e sem atalhos a imperiosa decisão de colocar o Brasil em linha com as melhores estratégias educacionais do planeta, sob pena de continuarmos a adiar indefinidamente o nosso futuro, com a injustificável complacência de nossas lideranças.

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