Terça-feira, 11 de Maio de 2021

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Edson Bündchen Verdade prêt-a-porter

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Vivemos um momento gravíssimo, com as mortes por Covid atingindo níveis insuportavelmente indecentes. Mesmo com todo esse quadro aterrador, o polarizado embate político, ao contrário de refrear, adquire ainda mais virulência. Em vez de coordenação nacional, vemos divisionismo e acusações mútuas. No lugar de bom senso e equilíbrio, assistimos ao radicalismo, sectarismo e intolerância crescentes. Nesse ambiente de confronto, há um apelo muito forte para ataques pessoais, para a desconstrução do outro, para ouvidos moucos, em completa oposição àquilo que a tradição ocidental do discurso socrático, platônico e aristotélico preconizaram desde a antiguidade. A perspectiva do diálogo como elemento catalisador para a construção de consensos, está sendo substituída pela busca da vitória a qualquer preço, mesmo ao custo de uma verdade conveniente ao momento, uma verdade “prêt-a-porter”, sob medida para agradar segmentos da população, muitos dizendo-se desencantados pela política e sedentos por uma narrativa que lhes faça sentido, mesmo sendo falseada em sua origem e natureza.

A estratégia do confronto, do ataque constante a adversários reais ou imaginários, com agressões abaixo da linha da cintura de forma permanente, buscando-se neutralizar os “inimigos”, com o uso da retórica, não é exatamente uma novidade. O filósofo Schopenhauer, ao longo de trinta e oito estratagemas, mostrou como seria possível vencer um debate sem ter razão, numa obra que, somada aos escritos de Maquiavel e da arte do sofismo, passaram a compor o repertório de políticos que apreciam a manipulação da verdade com objetivos pessoais pouco nobres. Esse modo de confrontação política, entretanto, não se circunscreve aos limites do Parlamento, mas espraia-se vigorosamente nas mídias sociais por indivíduos suscetíveis a discursos radicalizados. A guerra hobbesiana de todos contra todos, numa alusão ao natural espírito belicista dos homens, projetada pelo filósofo inglês, encontra hoje um espaço extremamente fértil, e transforma o debate social e político, em muitos casos, num autêntico massacre à verdade, com o agravante de relativizar, e até mesmo vilipendiar, conceitos universalizados como a liberdade, por exemplo.

Os limites entre liberdade, igualdade e segurança, é importante frisar, condicionam grande parte das políticas ou abordagens filosóficas, uma vez que delimitam os seus contornos. São temas de tamanha envergadura que, tomados sem o zelo necessário, comprometem a vida em sociedade e o bem comum. É o caso agora, da assombrosa inversão entre postulados científicos e crença popular na profilaxia à Covid-19. É também notório perceber esse engano quando da discussão pelo STF da abertura ou não dos templos religiosos durante o pico da pandemia. Sem essa compreensão elementar sobre os direitos individuais e as garantias coletivas, abrem-se as comportas para visões libertárias, que, a pretexto de valorizar a liberdade, sujeitam o conjunto da sociedade a riscos inadmissíveis.

Essa maneira erística de inversão dos fatos em desfavor da verdade, não é apenas uma estratégia política nefasta, mas converte-se, dada a situação atual da pandemia, em atentado contra o próprio conceito de bem comum, solapando a ideia de que estamos todos juntos nisso, de que somos solidários, pelo menos na tragédia. A perdurar a insensatez atual, enfraquecemos nosso senso de comunidade, fragilizamos a ideia de sacrifício compartilhado, e tornamos menos densos os laços que nos unem. Não cessando o discurso do ódio, alimentaremos rancores, segregaremos ainda mais os contrários e criaremos uma legião de derrotados. Essa mistura tóxica de sentimentos pode comprometer o nosso futuro, caso não saibamos criar uma alternativa razoável para a atual e indesejável cizânia, e isso somente poderá ocorrer quando os espíritos forem serenados e o interesse coletivo se converter numa força capaz de fazer os contrários dialogar, convergir e avançar.

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