Sexta-feira, 14 de Agosto de 2020

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Brasil Nem os juros baixos estimulam a tomada de crédito por empresas

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Cenário não é de otimismo, pois o consumo não dá sinais de aquecimento. (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

Nem a inflação sob controle nem os juros no patamar mais baixo da história têm conseguido estimular empresários a levantar recursos para investir. Dados do BC (Banco Central) mostram que o estoque de dinheiro emprestado às empresas pelos bancos no País atingiu R$ 1,4 trilhão em abril, uma retração de 2,8% em relação a dezembro de 2018. O volume é o menor desde outubro do ano passado. Só entre março e abril, a queda foi de 1,1%.

Com a taxa básica de juros (Selic) em 6,5%, não é difícil ouvir de empresários que não houve nos últimos anos melhores condições para tomar crédito. Por outro lado, a desaceleração do consumo das famílias e o elevado nível de desemprego, além das dificuldades do governo de acelerar a agenda de reformas, vêm aumentando as incertezas sobre o desempenho da economia nacional, que amargou retração de 0,2% nos três primeiros meses deste ano.

Sem dívidas

Para economistas, o baixo apetite por crédito mostra que uma redução dos juros agora seria insuficiente para impulsionar a atividade. O problema está na falta de confiança no processo de recuperação da economia.

Para Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio), as incertezas só começarão a se dissipar com a aprovação das reformas e com sinais claros de melhora das contas públicas do País.

“O cenário não é de otimismo, pois o consumo não dá sinais de aquecimento. Por isso, os investimentos são postergados. Se a economia crescer em 2020, talvez possamos ver uma reação no segundo semestre a depender do cronograma de aprovações das reformas.”

Na defensiva

No setor de serviços, um dos que mais têm sofrido com o fraco desempenho da economia, o momento também é de cautela.

Para Mauricio Oreng, economista-chefe do Rabobank, de fato não há motivos para as empresas se endividarem no atual momento de incerteza. Por isso, avalia que um eventual corte nos juros pelo BC — pedido de alguns setores empresariais que ganhou força com o fraco desempenho da economia no primeiro trimestre — não afetaria a demanda das empresas por crédito para investir e contratar. Isso porque, além do custo da operação, a tomada de decisão também é baseada na expectativa de lucros futuros, já que são créditos de longo prazo.

“Estamos em uma recuperação muito lenta após uma forte recessão. O crédito é uma questão de demanda. Todo mundo está jogando na defensiva”, resume Oreng.

Eduardo Nishio, analista do banco Brasil Plural, avalia que dificilmente os bancos atingirão o teto das estimativas de expansão das carteiras de empréstimo este ano em relação a 2018, de pouco mais de 10%.

“Se a reforma da Previdência for aprovada até agosto, que é o que prevemos, poderemos ter um segundo semestre bem mais animado. Mas, por enquanto, a previsão é de um crescimento baixo e fica mais difícil ampliar o crédito.”

O cenário também segue desanimador quando se observam as operações no mercado de capitais, uma fonte de financiamento alternativa ao crédito bancário. A emissão de debêntures (títulos de crédito) somou R$ 29,1 bilhões de janeiro a abril, queda de 37% no ano, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

Outras medidas

José Eduardo Laloni, vice-presidente da entidade, explica que as gestoras de recursos que compram os títulos das empresas aceitam prazos mais longos que os bancos, mas ainda assim falta apetite das companhias para assumir uma operação dessas em nome de um investimento que só dará retorno anos à frente:

“A baixa atividade econômica está atrapalhando. Há recursos, mas falta tomador. Não vamos ter um primeiro semestre do jeito que imaginamos, mesmo com as condições (financeiras) boas para as empresas. O custo de captação está baixo e os prazos chegam a cinco, sete anos, o que era impossível há dois ou três anos.”

Para ele, o quadro só mudará com sinais claros de retomada. Para isso, além da Previdência, é preciso outras medidas do governo, como a desburocratização e a redução das incertezas em privatizações e concessões.

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tags: recessão

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