Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 25 de janeiro de 2018
Em uma época em que predominam notícias ruins para a ciência nacional, como a queda expressiva de recursos para a área e a ida de pesquisadores para fora do País, a matemática brasileira acaba de proporcionar um alento.
O País foi promovido para o grupo de elite da matemática mundial, o chamada Grupo 5, que reúne as nações mais desenvolvidas na pesquisa da área.
O anúncio foi feito nesta quinta-feira (25) na sede do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), no Rio de Janeiro, uma das instituições mais prestigiadas do mundo.
“Se houvesse um campeonato mundial da matemática, é como se tivéssemos subido para a primeira divisão da competição”, compara Marcelo Viana, diretor do Impa.
Essas “divisões” são estabelecidas pela União Matemática Internacional (IMU, na sigla em inglês), organismo que congrega as sociedades matemáticas de nações de todo o planeta. Ela divide seus 76 países-membros em cinco grupos, por ordem de excelência.
O Brasil aderiu à IMU em 1954, entrando, assim, no Grupo 1; em 1978, ascendemos ao grupo 2; ao 3, em 1981; e, em 2005, ao Grupo 4. O país agora fará companhia à Alemanha, Canadá, China, Estados Unidos, França, Israel, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia.
“Não me recordo de outro país que tenha feito esse percurso”, afirma Viana. As outras nações, com bem mais tradição na pesquisa matemática, já foram admitidas nos grupos mais altos.
Influência
Com a ascensão, o Brasil ganha mais peso e influência nas decisões relacionadas ao mundo da matemática e passa a contar com cinco votos na assembleia geral da organização.
Paolo Piccione, professor da USP e presidente da SBM (Sociedade Brasileira de Matemática), vê também um possível efeito interno.
“A chegada do Brasil ao Grupo 5 mostra que o País tem potencial para se relacionar com as nações cientificamente mais desenvolvidas do mundo. Mostra que talento não falta por aqui.”
“Além disso”, prossegue Piccione, “o País consolida sua posição de referência na matemática dentro da América Latina”.
A promoção do País à elite da matemática mundial também é um reconhecimento de tudo o que foi feito nas últimas seis décadas no Brasil.
Os números não mentem. A evolução da produção científica do Brasil é notável. Em termos absolutos, nossos pesquisadores passaram, nos últimos 30 anos, de 253 artigos publicados em revistas especializadas para 2.349. Proporcionalmente a produção dos matemáticos brasileiros passou, nesse período, de 0,7% de todos o artigos para 2,35%.
Também cresceu de maneira expressiva o número de alunos de doutorado e de programas de pós-graduação em matemática.
Em 1970, por exemplo, havia apenas cinco cursos de doutorado na área, ante 30 atualmente. Os alunos de doutorado, que eram 677 em 2007, hoje em dia, são quase 1.400.
A isso se somam outros fatores, por exemplo, a crescente presença de matemáticos brasileiros entre os conferencistas convidados para o Congresso Internacional de Matemáticos, o maior evento da área, que só ocorre a cada quatro e cuja próxima edição será realizada em 2018 no Rio de Janeiro.
Discrepância
A entrada do Brasil no Grupo 5 chama atenção ainda pela discrepância entre a excelência da pesquisa desenvolvida por aqui e a má qualidade do ensino de matemática no País. No último Pisa, principal avaliação da educação básica no mundo, o país ficou em 65º colocado num universo de 70 países.
Mais de 70% dos alunos brasileiros de 15 e 16 anos não alcançam sequer o nível básico de proficiência em matemática, ou seja, são incapazes de resolver problemas simples envolvendo números.
“Esse paradoxo não é exclusivo do Brasil”, afirmou o matemático Artur Avila.
“Existe uma diferença grande entre o progresso geral e o que você consegue alcançar dentro de um pequeno grupo, mas é óbvio que o Brasil necessita de um bom ensino de matemática em todos os níveis para não desperdiçar potencial.”
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