Terça-feira, 13 de Abril de 2021

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Lenio Streck O triunfo do homem comum, o BBB e o fracasso da humanidade!

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O homem comum… Quem é ele? O psicanalista Mario Corso me inspira – sou seu fã – ao escrever tratar do “homem comum”.

O homem comum é produto da modernidade. Claro: nasce com o sujeito moderno. Saiu da toca. Nem sabia que sabia algo. Tinha angústia, mas não sabia que tinha.

Hoje vivemos o ápice de uma forma social individualista. O que não é fácil, pois cada um tem que inventar uma vida e uma identidade para si. Hoje, o homem comum está duplamente órfão de referências e se sente bem. Já não aceita a hierarquia de idade e agora é anticiência, anti-qualquer-coisa.

Em quem buscará apoio? Nos seus pares, nos outros homens comuns. Rejeita a ciência. Rejeita o complexo. Daí pergunta Corso: Por que o homem comum, inchado narcisicamente, iria respeitar essa forma de organizar o saber? Ele vai procurar outros comuns, como ele, que traduzam para seu nível de (in)compreensão, os mistérios da vida.

É isso: antes, o “homem-massa” (a expressão é de Ortega) queria um líder que lhe dissesse o que fazer. Hoje, o homem comum só reconhece a autoridade daquele em quem ele se vê. Explica muito, pois não?

Um bom exemplo do homem comum é o BBB – Big Brother Brasil, conta Corso. O homem comum é a pessoa do BBB. Não têm nada de especial, podem se tornar famosos. Vieram do anonimato, não dominam necessariamente um tema e têm opinião sobre tudo. Não há nada que sustente suas opiniões…que são sobre aquilo que não sabem.

O BBB anterior teve mais de 50 milhões de ligações na grande final. Veja: são 50 milhões de pessoas comuns ligando para tornar uma pessoa comum a campeã de algo que representa o fracasso da humanidade. O voyeurismo que resta para o homem comum.

Dizem que agora o BBB está mais democrático. E dizem que rolou a maior balbúrdia (no mau sentido da palavra). Mas nem vou comentar para não ser cancelado, se entendem meu sarcasmo-antiBBB.

O homem comum é negacionista. Não existe alguém incomum que seja negacionista. O homem comum nem sabe o que é o negacionismo.

O homem comum está em todos os lugares. O direito é a área preferida. Já no jornalismo, o exemplo de Ernesto Paglia é lapidar. Ele foi fazer reportagem sobre a pesca predatória de camarões. Para falar do assunto, começou mostrando uma fritada de…camarões. “Jenial”, não? E outro repórter, para falar do tempo que faltava para o jogo São Paulo e Flamengo, foi para dentro de uma loja de…relógio. Entenderam? Tempo igual a relógio… Dã! Como vive um repórter comum? O que come? Não percam…!

O homem comum viola a famosa lei de David Hume: de um é, não se pode tirar um “deve”. Mas o homem comum o faz. Como ele é um empirista mequetrefe sem saber que é um empirista mequetrefe, só vê o mundo pela ótica do senso comum. Assim, do “é” (existe violência”) ele tira um “deve” (implementar a pena de morte ou triplicar todas as penas). Por ser empirista-mequetrefe, o homem comum reproduz fake news. Porque não suspende seus pré-juízos. O homem comum é rito de passagem de informações.

O homem comum dá um bom Globo Repórter: como vive o homem comum? O que come? Como se reproduze? Como dá palpite em tudo? Como é negacionista? Não percam.

Por fim, o homem comum aqui tratado quer dizer “homem” no sentido de ser humano. É como dizer “os argentinos estão felizes por estarem tomando vacina”. Não é necessário dizer “argentinos e argentinas”! Se alguém reclamar por não ter falado “a mulher comum” ou ter escrito, em vez de “o”, um x ou @, sem dúvida que “esse alguém” faz parte do rol do clube do “homem comum”, se entendem, agora, minha neo-ironia.

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